A coragem, no cinema de Clint Eastwood, costuma ser menos uma virtude luminosa que um reflexo tardio, quase físico, de homens que chegam ao instante decisivo sem saber exatamente se estavam preparados para ele. Em “15h17 — Trem para Paris”, essa obsessão do diretor por heróis comuns encontra sua forma mais literal e, paradoxalmente, sua maior fragilidade: Eastwood não escala atores para viver Anthony Sadler, Alek Skarlatos e Spencer Stone, mas os próprios rapazes que, em 2015, impediram um massacre dentro do trem Thalys 9364, a caminho da capital francesa.
O gesto é ousado e tem alguma nobreza. Também cobra um preço alto. Antes de chegar ao ataque, o filme recua à infância dos três amigos, mostrando meninos inquietos, desajustados à disciplina escolar e criados sob o peso de famílias religiosas, mães apreensivas e uma América que ainda acredita que destino se constrói por obediência, patriotismo e providência. Spencer, especialmente, ganha a centralidade dramática: é ele quem parece carregar a frustração de não se encaixar direito em lugar nenhum, da escola à Força Aérea, até que a vida, caprichosa como sempre, lhe oferece a chance de transformar inadequação em bravura.
Eastwood filma tudo com uma secura quase teimosa. Há algo de bonito em sua recusa ao espetáculo fácil, em sua vontade de encontrar grandeza no cotidiano, nas conversas banais, nos deslocamentos turísticos pela Europa, nos selfies, nos bares, nas ruas de Veneza, Berlim e Amsterdã. O problema é que essa preparação se alonga além do necessário e frequentemente confunde simplicidade com rarefação dramática. Sadler, Skarlatos e Stone têm presença simpática, mas não têm ofício; quando precisam apenas existir diante da câmera, funcionam melhor, mas quando o roteiro exige inflexão, hesitação, conflito íntimo, a cena perde força.
Ainda assim, quando o terrorista armado com um AK-47 finalmente surge no trem, “15h17 — Trem para Paris” encontra a tensão que vinha procurando. A sequência é curta, brusca, quase desajeitada, e justamente por isso impressiona: não há coreografia heroica, há pânico, impulso, corpos trombando num corredor estreito, homens fazendo em segundos o que talvez passassem a vida inteira tentando explicar. Eastwood entende esse momento como poucos. Pena que o filme inteiro pareça menor que o acontecimento que o justifica.
“15h17 — Trem para Paris” é uma obra irregular, às vezes ingênua, às vezes tocante, que fracassa como drama de formação, mas preserva um respeito raro pelos homens que retrata. Eastwood não transforma seus heróis em santos. Apenas os coloca no trem certo, na hora exata, e deixa que o destino faça o barulho que o cinema, desta vez, não conseguiu fazer sozinho.

