Discover

Em “Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões”, filme de 1991 dirigido por Kevin Reynolds, Robin de Locksley (Kevin Costner) retorna da Terceira Cruzada para a Inglaterra e descobre que sua vida anterior acabou. O nobre, antes ligado à ordem e ao privilégio, chega à propriedade da família e encontra ruínas, morte e medo. Seu pai foi assassinado, suas terras foram tomadas e o xerife de Nottingham (Alan Rickman) domina a região com impostos, violência e ambição política. Sem casa, sem título útil e com pouco tempo para reagir, Robin se alia a Azeem (Morgan Freeman), prisioneiro mouro que ele ajudou a libertar em Jerusalém, e passa a enfrentar um poder local que parece ter transformado o reino em negócio privado.

A aventura começa longe da Inglaterra, em uma prisão em Jerusalém, onde Robin divide o cárcere com Azeem. A fuga dos dois já indica o tipo de parceria que o filme pretende construir. Robin age por instinto, Azeem observa antes de agir, e os dois sobrevivem porque cada um oferece algo que o outro ainda não tem. Robin conhece a guerra, mas age com certa impulsividade. Azeem tem experiência, técnica, fé e um senso de dívida que, para ele, vale mais que qualquer contrato assinado.

Quando Robin volta para casa, o reencontro com a Inglaterra não tem nada de heroico. A propriedade de Locksley virou um lugar devastado, marcado pela morte do pai e pela ausência de qualquer proteção legal. A nobreza, que antes lhe dava nome e acesso, já não garante segurança. O xerife de Nottingham ocupa esse vazio com homens armados, ordens abusivas e um gosto quase teatral pelo autoritarismo. Robin percebe que, para recuperar qualquer coisa, terá de deixar de ser apenas um herdeiro ferido e passar a agir fora das regras que protegiam gente como ele.

A floresta vira abrigo e campo de guerra

A Floresta de Sherwood entra na história como um território de gente acuada. Ali vivem homens e famílias expulsos das rotas oficiais, escondidos entre árvores, lama, pontes improvisadas e esconderijos. Robin chega sem ser recebido com festa. Para Little John (Nick Brimble) e seu grupo, ele ainda é um nobre, alguém vindo de uma classe que sempre teve mais portas abertas. Antes de liderar qualquer coisa, precisa provar que sabe dividir risco, comida e responsabilidade.

Esse trecho dá ao filme boa parte de sua energia. A aventura mistura flechas, perseguições, brigas, armadilhas e uma camaradagem que nasce aos trancos. Will Scarlett (Christian Slater) observa Robin com desconfiança e rancor, funcionando como uma voz incômoda dentro do próprio bando. Ele impede que o protagonista seja tratado como salvador automático. A floresta, então, deixa de ser cenário bonito e vira uma pequena comunidade em construção, com regras frágeis, pouca comida e inimigos demais à espreita.

Azeem rouba a cena sem pedir licença

A relação entre Robin e Azeem é uma das melhores escolhas do filme. Morgan Freeman dá ao personagem uma presença firme, irônica e elegante, mesmo quando o roteiro usa o olhar estrangeiro para comentar os hábitos ingleses com certo deboche. Azeem não está ali apenas para seguir o herói. Ele cura ferimentos, oferece soluções, desarma preconceitos e coloca Robin diante de um mundo maior que sua antiga propriedade. Em várias cenas, sua calma vale tanto quanto qualquer espada.

Kevin Costner interpreta Robin com um tipo de carisma solar, às vezes mais leve do que a brutalidade ao redor parece pedir. Ainda assim, essa leveza ajuda a explicar por que homens tão diferentes aceitam ficar perto dele. Robin erra, insiste, fala antes de pensar e parece aprender em movimento. O filme ganha quando permite que ele seja menos perfeito e mais humano, alguém tentando reunir pessoas famintas, assustadas e armadas enquanto o xerife aperta o cerco.

Nottingham domina pelo medo

Alan Rickman faz do xerife de Nottingham um vilão de gestos grandes, olhar impaciente e frases afiadas. Ele interpreta a maldade com um prazer quase indecente, o que dá ao filme uma dose de graça sem tirar o perigo da situação. O xerife manda prender, confiscar e perseguir porque precisa manter o controle enquanto o rei Ricardo permanece distante. Seu poder depende de castelo, soldados, tributos e aparência de autoridade. Quando Robin começa a atacar comboios e ajudar os pobres, essa autoridade passa a sofrer arranhões visíveis.

O romance com Marian (Mary Elizabeth Mastrantonio) entra nesse ambiente de risco. Ela conhece a posição social de Robin, mas também vê o dano deixado pelo xerife na região. Marian não é apenas a figura idealizada esperando resgate. Ela avalia, questiona e se envolve aos poucos, dentro das limitações de uma superprodução dos anos 1990. Sua presença liga Robin ao mundo que ele perdeu e ao país que tenta salvar, criando uma tensão afetiva em meio à guerra particular contra Nottingham.

Uma aventura grande e assumida

“Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões” tem o tamanho, os excessos e a confiança de um cinema de aventura que hoje parece mais raro. A trilha cresce, os cenários pesam, os figurinos carregam a época no tecido e algumas cenas pedem licença ao realismo para abraçar o espetáculo. O filme nem sempre é discreto, mas quase sempre sabe ser envolvente. Há batalhas, romance, amizade, vilania e um senso de movimento que mantém a história viva sem depender apenas da fama da lenda.

Kevin Reynolds filma Robin como alguém que precisa conquistar cada pedaço de apoio. Primeiro, ele foge da prisão. Depois, perde a casa. Em seguida, busca abrigo na floresta, enfrenta a suspeita dos fora da lei e desafia o xerife em ações cada vez mais arriscadas. Esse encadeamento torna o enredo fácil de acompanhar e dá peso às alianças. Ninguém entra naquela luta por conforto. Cada personagem paga alguma conta, seja em segurança, reputação, comida ou liberdade.

“Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões” pode ser irregular, barulhento e, em certos trechos, exagerado com orgulho. Ainda assim, preserva algo valioso. O filme conta sua história com personagens reconhecíveis, objetivos definidos e vilões que ameaçam de verdade. Robin sai das ruínas de Locksley sem exército e sem garantias, mas encontra em Sherwood uma forma de resistência que transforma fugitivos em força capaz de incomodar o castelo.


Filme: Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões
Diretor: Kevin Reynolds
Ano: 1991
Gênero: Ação/Aventura/Drama/Romance
Avaliação: 4/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

Leia Também