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Em “Minha Querida Senhorita”, drama espanhol de 2026 dirigido por Fernando González Molina, Adela Castro (Elisabeth Martínez) vive em Pamplona, em 1999, cercada por uma família que acredita protegê-la ao esconder dela uma verdade decisiva sobre seu corpo. A jovem é intersexo, mas cresceu sem saber disso, presa a uma rotina de vergonha, vigilância e isolamento. Entre a casa dos pais, a loja de antiguidades da família e os comentários cruéis da vizinhança, ela passa a perceber que a vida que recebeu talvez tenha sido pequena demais para tudo o que sente.

Adela sempre viveu sob o olhar atento da mãe, Cruz (Nagore Aranburu), que tenta blindar a filha do mundo exterior. O gesto nasce do medo, mas se transforma numa espécie de prisão doméstica. Em vez de preparar Adela para enfrentar a cidade, a família a mantém em um cotidiano apertado, no qual quase tudo parece regulado por silêncio, pudor e obediência. A intenção pode até parecer carinhosa, mas o resultado é sufocante. Quem nunca viu excesso de proteção virar cerca talvez esteja vivendo em um comercial de margarina antigo demais.

A jovem trabalha como professora e também ajuda o pai na loja de antiguidades, ambiente que combina com a própria sensação de tempo suspenso. Enquanto os objetos antigos ocupam vitrines e prateleiras, Adela também parece guardada ali, fora de circulação, sem espaço para descobrir o que deseja. Seu corpo chama atenção pela altura e pela aparência, e isso basta para que vizinhos e conhecidos a tratem com deboche. O apelido “la caballo”, usado contra ela, resume a violência cotidiana de uma comunidade que transforma diferença em piada antes mesmo de tentar compreendê-la.

Elisabeth Martínez interpreta Adela com uma mistura delicada de contenção e desconforto. A personagem raramente parece à vontade dentro da própria pele, não porque rejeite quem é, mas porque passou a vida aprendendo a se olhar pelos olhos dos outros. A vergonha, nesse caso, não nasce espontaneamente. Ela foi ensinada em casa, reforçada na rua e confirmada por cada comentário maldoso. O filme acerta ao mostrar esse peso sem transformar Adela em vítima passiva. Mesmo quieta, ela observa, acumula perguntas e começa a perceber as rachaduras da versão familiar.

O padre como ponto de respiro

Um dos poucos vínculos de confiança de Adela é com o padre José María (Paco León), personagem importante para que ela comece a imaginar outra vida. Ele não aparece como uma figura milagrosa nem resolve aquilo que a família ocultou durante anos. Seu papel é mais simples e, por isso, mais humano. José María escuta Adela, reconhece sua solidão e a incentiva a sair do espaço limitado em que foi criada. Quando diz que as pessoas têm medo de mulheres altas e homens afeminados, ele aponta a crueldade de um mundo que pune qualquer corpo fora do padrão.

Paco León dá ao padre uma presença calorosa, sem transformar o personagem em santo decorativo. Há nele uma franqueza bem-vinda, quase uma ironia serena diante da hipocrisia ao redor. A relação com Adela também ajuda o filme a respirar, pois retira a protagonista da dinâmica repetida entre culpa, medo e obediência. José María funciona como uma fresta de ar em uma casa onde todo afeto vem acompanhado de controle. Ele oferece à jovem algo raro naquele ambiente, a autorização moral para errar.

Essa dimensão é uma das mais fortes de “Minha Querida Senhorita”. O filme compreende que liberdade não chega como grande discurso, mas por gestos pequenos. Uma conversa, uma saída, uma dúvida dita em voz alta. Para Adela, cada passo fora de casa tem peso concreto, porque mexe com a autoridade da mãe, com a reputação familiar e com a imagem que a cidade construiu sobre ela. A direção de Fernando González Molina acompanha esse processo com cuidado, ainda que em alguns trechos insista demais na mesma ferida.

Madri abre outra paisagem

As coisas mudam quando Adela deixa Pamplona e parte para Madri no início do novo milênio. A mudança de cidade não apaga seus medos, mas muda a escala de sua vida. Longe da vigilância familiar e dos apelidos conhecidos, ela passa a circular por lugares onde pode experimentar novas formas de amizade, desejo e pertencimento. Madri surge como espaço de descoberta, mas também de insegurança. A liberdade, para alguém criado sob tantas proibições, não chega confortável. Ela vem junto com o susto de escolher.

É nesse trecho que Isabel (Anna Castillo) ganha força na história. Amiga sedutora, viva e mais solta que Adela, ela representa uma possibilidade afetiva que a protagonista nunca pôde considerar sem culpa. A presença de Isabel ilumina o filme porque desloca a narrativa do sofrimento para o desejo. Há uma energia bonita entre as duas, feita de olhares, aproximações e pequenos constrangimentos. Anna Castillo imprime à personagem uma leveza muito bem dosada, capaz de tirar Adela do casulo sem transformar essa aproximação em fantasia fácil.

O problema é que “Minha Querida Senhorita” nem sempre aproveita todo o potencial dessa relação. Em alguns momentos, o roteiro volta demais à dor de Adela diante da própria identidade e deixa pouco espaço para que o romance respire com mais liberdade. A questão da intersexualidade é tratada com respeito e importância, mas a repetição de certas angústias cria a sensação de que o filme poderia confiar mais em suas cenas de afeto. Quando Isabel está em cena, a história ganha movimento, charme e uma sensualidade tímida que mereciam mais presença.

Entre vergonha e desejo

A adaptação livre do drama espanhol de 1972 encontra sua força ao atualizar uma história marcada por segredo, controle familiar e inadequação social. A nova versão olha para Adela com mais generosidade e oferece a ela uma chance de existir fora das categorias rígidas impostas desde o nascimento. O filme não trata sua intersexualidade como curiosidade médica. O foco está no dano provocado pelo silêncio, pela mentira bem-intencionada e pela vergonha transmitida de geração em geração.

A direção usa a diferença entre Pamplona e Madri para marcar essa mudança de mundo. A primeira cidade aparece ligada à casa, à loja de antiguidades, à família e ao julgamento dos outros. A segunda surge com mais cor, circulação e abertura para encontros. Essa oposição poderia soar óbvia, mas funciona porque acompanha a experiência de Adela. Ela não vira outra pessoa ao trocar de endereço. Apenas ganha margem para se escutar sem a presença constante de quem decidiu por ela durante tempo demais.

“Minha Querida Senhorita” é mais eficiente quando permanece perto da protagonista e menos convincente quando sublinha demais suas mensagens. Ainda assim, a força de Elisabeth Martínez sustenta o drama com sensibilidade rara. Sua Adela carrega dor, curiosidade, medo e uma vontade crescente de ocupar o próprio corpo sem pedir desculpas. Ao lado de Anna Castillo e Paco León, ela dá humanidade a uma história que poderia cair no didatismo, mas encontra vida nos gestos mais simples.

Adela não procura apenas uma resposta sobre sua condição. Ela procura o direito de andar pela rua sem carregar a vergonha fabricada pelos outros. Entre a casa que a protegeu demais e a cidade que lhe oferece novas possibilidades, “Minha Querida Senhorita” transforma uma história íntima em crítica social sensível, com falhas pontuais, boas atuações e uma protagonista difícil de esquecer.


Filme: Minha Querida Senhorita
Diretor: Fernando González Molina
Ano: 2026
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 3.5/5 1 1
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