Em 1983, Brian De Palma levou aos cinemas “Scarface”, drama criminal ambientado em Miami, onde um refugiado cubano tenta comprar respeito com dinheiro, medo e cocaína.
“Scarface” começa durante o êxodo de Mariel, em 1980, quando milhares de cubanos deixam a ilha rumo aos Estados Unidos. Entre eles está Tony Montana (Al Pacino), homem de temperamento incendiário, orgulho ferido e nenhuma vocação para esperar sua vez em filas burocráticas. Ele chega à Flórida sem prestígio, sem dinheiro e sem garantia de permanência. O campo de refugiados, longe de ser uma porta generosa para o sonho americano, vira uma espécie de sala de triagem moral. Quem tem contatos avança. Quem não tem, permanece à margem.
É nesse ambiente que Manny Ribera (Steven Bauer), amigo de Tony, apresenta uma saída. Para conseguir documentos e ganhar liberdade, Tony aceita cometer um crime encomendado. O gesto já informa muito sobre ele. Tony não entra no submundo aos poucos, por descuido ou por influência alheia. Ele faz uma escolha consciente, movida por pressa, fome de ascensão e uma raiva quase permanente contra qualquer pessoa que tente colocá-lo em uma posição menor.
Brian De Palma filma esse início com a secura de quem sabe que a ascensão de Tony não será uma aventura charmosa. “Scarface” é um filme de crime, mas também um drama sobre pertencimento. Tony quer dinheiro, sim. Quer mansões, ternos, carros, mulheres e mesas onde ninguém ouse mandá-lo sair. Mas, antes de tudo, quer provar que não será tratado como resto de política internacional, mão de obra barata ou criminoso descartável. O problema é que ele escolhe o caminho mais barulhento, mais sangrento e mais caro para exigir esse reconhecimento.
Frank Lopez abre a primeira porta
Depois de deixar o campo de refugiados, Tony entra na órbita de Frank Lopez (Robert Loggia), traficante estabelecido em Miami. Frank tem contatos, estrutura e uma vida cercada por sinais de poder. Para Tony, aquilo não é apenas emprego. É vitrine. Ele observa os salões, os negócios e os homens que falam baixo porque já mandam demais. Em pouco tempo, percebe que o medo pode ser uma moeda mais eficiente que a cortesia.
O primeiro grande teste vem quando uma transação com traficantes colombianos sai do controle. Tony reage com brutalidade e sobrevive ao caos. A cena marca sua entrada real no crime de Miami, mas também apresenta sua falha mais perigosa. Ele tem coragem, presença e instinto para a violência, porém quase nenhuma disposição para cautela. Frank enxerga nele um funcionário útil, mas difícil de conter. Tony, por sua vez, passa a enxergar Frank menos como chefe e mais como homem ocupando um lugar que poderia ser seu.
É nesse ponto que “Scarface” deixa de ser apenas a história de um criminoso em ascensão e passa a acompanhar a corrosão de todas as relações ao redor dele. Tony não se satisfaz em cumprir tarefas. Ele quer mandar. Não se contenta em ganhar dinheiro. Quer exibir. Não aceita estar perto do poder. Quer sentar na cadeira principal, ainda que a cadeira esteja cercada por inimigos armados e parceiros pouco confiáveis.
Elvira, Gina e o preço íntimo
A entrada de Elvira Hancock (Michelle Pfeiffer) torna essa disputa mais pessoal. Ela é a companheira de Frank, elegante, distante e entediada demais para se impressionar com a agressividade de Tony. Ainda assim, ele passa a desejá-la com a mesma voracidade com que deseja o império do chefe. Elvira representa status, acesso e vitória social. Para Tony, conquistá-la seria provar que Frank já não possui nem mesmo o brilho que sustenta sua imagem.
Michelle Pfeiffer interpreta Elvira com uma frieza cortante. A personagem parece sempre um passo acima da vulgaridade ao redor, mesmo quando está presa a ela. Sua presença contrasta com o excesso de Tony. Ele fala alto, provoca, compra, promete e se impõe. Ela observa, avalia e se desgasta. O filme cria tensão justamente nesse descompasso. Tony acredita que tudo pode ser tomado. Elvira revela, com poucas reações, que certas conquistas perdem valor quando chegam cobertas de ameaça.
Fora dos salões do crime, Gina Montana (Mary Elizabeth Mastrantonio), irmã mais nova de Tony, ocupa o espaço mais delicado da história. Ele a ama, mas transforma esse afeto em vigilância. Quer protegê-la do mundo que ele próprio escolheu habitar. A contradição é evidente e dolorosa. Tony usa dinheiro sujo para tentar se apresentar como provedor, mas sua mãe, Georgina Montana (Miriam Colon), não aceita a encenação. Ela sabe de onde vem aquele conforto e repudia o filho por isso. A rejeição materna atinge Tony porque desmonta sua fantasia de respeito dentro da própria família.
O império cresce sem descanso
Al Pacino faz de Tony Montana uma figura maior que o ambiente, muitas vezes maior até que o bom senso. Seu corpo parece sempre inclinado para a próxima provocação. A fala carrega orgulho, deboche e ameaça. Há uma graça amarga em vê-lo tentar vestir a roupa de magnata enquanto conserva os modos de quem ainda briga pela entrada do clube. O espectador ri, às vezes, não porque a situação seja leve, mas porque Tony leva sua própria grandeza a sério demais.
“Scarface” também funciona porque De Palma não trata a violência como ornamento. Cada ato brutal altera uma relação, fecha uma porta ou abre outra pior. O crime não surge como fantasia limpa de poder. Ele aparece cheio de sujeira, paranoia, vício e homens dispostos a matar por dinheiro ou vaidade. Quando Tony sobe, Miami fica menor ao redor dele. O luxo aumenta, mas a confiança desaparece. A mansão cresce, mas a solidão ganha quartos cada vez mais caros.
O roteiro de Oliver Stone acompanha essa expansão com ritmo firme. Tony passa de refugiado sem documentos a traficante temido, atravessando restaurantes, boates, reuniões e casas onde o dinheiro circula com naturalidade obscena. Mesmo assim, o filme nunca deixa que sua ascensão pareça simples vitória. Cada novo degrau cobra algo. Um aliado se afasta. Uma mulher se cansa. Um parente se machuca. Um rival presta mais atenção. Tony acumula recursos, mas perde a capacidade de distinguir respeito de pavor.
Um clássico sobre fome e ruína
Quarenta anos depois, “Scarface” ainda preserva força porque seu enredo é fácil de acompanhar e difícil de ignorar. Tony Montana quer tudo, e essa palavra, no caso dele, nunca cabe em uma mala só. Ele quer o dinheiro de Frank Lopez, a presença de Elvira Hancock, a obediência de Manny Ribera, a pureza impossível de Gina Montana e a aprovação de uma mãe que se recusa a fingir orgulho. Ninguém ao redor consegue entregar tudo isso sem pagar um preço.
A crítica mais interessante de “Scarface” nasce dessa clareza narrativa. O filme acompanha um homem que confunde poder com autorização para ocupar todos os espaços. Miami lhe oferece entrada, dinheiro e fama criminal, mas não lhe entrega paz. Brian De Palma observa essa escalada com energia operística, sem transformar Tony em santo, mártir ou gênio incompreendido. Ele é carismático, perigoso, engraçado quando não pretende ser e assustador quando acredita estar apenas defendendo o que conquistou.
“Scarface” é um dos grandes retratos do crime no cinema americano porque entende a ambição como uma força física. Ela empurra Tony Montana para salas cada vez maiores, negócios cada vez mais arriscados e relações cada vez mais frágeis. O filme não precisa revelar tudo para deixar sua conta à vista. Basta acompanhar esse homem avançando por Miami, cercado por luxo e ameaça, para perceber que algumas portas, depois de abertas, não permitem uma saída limpa.

