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“Encontrando Forrester” acompanha Jamal Wallace, adolescente do Bronx que, no início dos anos 2000, recebe uma bolsa em um colégio de elite de Manhattan graças às notas e ao basquete, mas passa a enfrentar a desconfiança de colegas e professores quando sua habilidade para escrever chama atenção.

Jamal Wallace, vivido por Rob Brown, conhece bem as regras de seu bairro. Na quadra, ele é respeitado. Entre os amigos, fala pouco sobre livros, redações e páginas rabiscadas em casa. A reserva não nasce de timidez decorativa. Ela vem da percepção de que, para um garoto negro do Bronx, ser ótimo no basquete parece aceitável, enquanto gostar de literatura costuma despertar uma estranheza que ninguém faz questão de disfarçar.

Essa rotina muda quando uma brincadeira entre colegas o leva ao apartamento de William Forrester, personagem de Sean Connery. O homem mora sozinho, raramente sai e alimenta uma reputação quase folclórica entre os vizinhos. Jamal entra no prédio por impulso e sai de lá com a sensação de ter provocado alguém que prefere viver atrás de cortinas, pilhas de livros e uma porta trancada. A visita cria um problema pequeno, mas decisivo. Ele precisa recuperar a mochila deixada no local.

Forrester devolve o material, porém faz anotações nas folhas de Jamal. Em vez de elogios vazios, há observações sobre ritmo, escolhas de palavras e trechos que poderiam ser melhores. O rapaz percebe que aquele desconhecido lê de verdade. O velho escritor percebe que o visitante não copia ideias alheias nem usa a escrita para parecer mais interessante. Daí nasce uma aproximação irregular, feita de frases secas, broncas e exercícios que não cabem na paciência de quem espera um mentor simpático.

Manhattan cobra credenciais

A pontuação de Jamal em um exame estadual e seu talento no basquete garantem uma bolsa no Mailor-Callow, colégio particular frequentado por jovens acostumados a circular entre bibliotecas silenciosas, clubes esportivos e sobrenomes que abrem portas. O aluno chega ali carregando duas etiquetas ao mesmo tempo. Para a direção, ele é uma aposta esportiva. Para muitos colegas, é o garoto que veio de longe demais para ocupar aquela cadeira.

Gus Van Sant não transforma a mudança de escola num desfile de lições edificantes. O cotidiano de Jamal vira uma sequência de salas onde ele precisa provar que sabe responder, ler e argumentar sem pedir licença. Há sempre alguém disposto a admirar seu desempenho em quadra, mas menos interessado em ouvir o que ele escreve. A escola oferece acesso a professores, torneios e livros raros, enquanto cobra uma postura que parece ter sido desenhada antes de sua chegada.

É nesse intervalo que Forrester ganha importância. O escritor pede que Jamal escreva todos os dias, revise os próprios textos e trate cada página com seriedade. Sean Connery se diverte com a impaciência de Forrester. Ele fala pouco, reclama muito e age com a formalidade de um homem que, mesmo de chinelos, parece estar recebendo uma comissão diplomática. Sob a carranca, há disciplina. O garoto recebe orientação, mas também uma condição. A amizade precisa permanecer protegida.

O professor desconfia

Robert Crawford, professor interpretado por F. Murray Abraham, assume a função de vigiar o progresso de Jamal. Especialista em literatura e habituado a alunos que repetem o que aprenderam em casa, Crawford se incomoda quando o recém-chegado apresenta textos maduros demais para a imagem que ele construiu do estudante. A dúvida não surge por acaso. Ela cresce porque Jamal prefere esconder a relação com Forrester, temendo quebrar a confiança que conquistou.

Crawford não é tratado como um vilão de cartilha. Abraham cria um homem rígido, vaidoso e convencido de que sua experiência o autoriza a separar talento verdadeiro de fraude. O problema é que ele olha para Jamal antes de ler Jamal. Em suas aulas, uma redação deixa de ser apenas tarefa escolar e passa a carregar o peso de uma acusação possível. Para o adolescente, cada texto passa a valer permanência, reputação e futuro.

Claire Spence, interpretada por Anna Paquin, ajuda a mostrar a distância entre a vida social do colégio e os corredores que Jamal percorre sem convite. Ela se aproxima sem tratá-lo como atração exótica, algo raro num ambiente onde qualquer diferença vira assunto de mesa. A relação não ocupa o centro da história, mas ajuda o rapaz a perceber que a bolsa não compra pertencimento. Ela compra uma chance, e chances têm prazo.

Uma amizade sem verniz

Forrester e Jamal não compartilham apenas o gosto por literatura. Os dois sabem o que significa guardar partes importantes de si para não serem usados por outras pessoas. Jamal esconde a escrita dos amigos porque não quer virar alvo de piadas. Forrester se esconde do mundo porque a fama transformou seu único livro num peso que ele não deseja carregar. O apartamento, cheio de papéis, livros e silêncio, vira um lugar de estudo e também de atrito entre gerações.

Gus Van Sant trabalha essa convivência sem transformar o escritor num santo de biblioteca. Forrester pode ser grosseiro, impaciente e incapaz de agradecer sem parecer que está assinando um contrato. Jamal, por sua vez, não aceita tudo de cabeça baixa. Ele quer aprender, mas também quer manter a própria voz. Essa tensão dá ao filme uma leveza rara. As conversas têm graça porque ninguém ali fala para parecer sábio. Cada um fala para proteger o pouco espaço que conquistou.

A direção mantém Manhattan e o Bronx em campos distintos, embora próximos no mapa. Jamal atravessa essa distância todos os dias, levando consigo cadernos, treinos e uma pressão que cresce fora da quadra. Quando a escrita passa a ser questionada, o mundo que ele montou entre a escola e o apartamento de Forrester ameaça se fechar. A confiança entre os dois deixa de ser apenas conforto e vira responsabilidade.

Talento pede testemunhas

“Encontrando Forrester” recusa o clichê do gênio salvo por um adulto famoso. Jamal já escrevia antes de conhecer Forrester. O que muda é a existência de alguém capaz de exigir mais dele sem tentar decidir por ele. Rob Brown interpreta o personagem com firmeza e uma vulnerabilidade discreta, sem transformar cada conflito em discurso. Seu Jamal observa o ambiente, calcula o que pode dizer e guarda energia para quando a discussão vale a pena.

Connery traz ao escritor uma presença que mistura arrogância e solidão. Ele poderia usar a fama para comandar cada passo do garoto, mas prefere manter distância até perceber que o silêncio também pode ferir. F. Murray Abraham, por outro lado, representa uma autoridade que confia demais no próprio julgamento. Entre o professor e o aluno, a escrita deixa de ser passatempo e vira prova de caráter.

Ao acompanhar Jamal entre o colégio, a quadra e o apartamento de Forrester, o filme fala de talento, classe social e acesso sem perder de vista as pessoas. Há um garoto tentando manter a bolsa, um escritor tentando sustentar o anonimato e um professor tentando defender uma ideia estreita de mérito. Cada página escrita por Jamal aumenta o risco de ser mal interpretada, mas também lhe dá uma presença que ninguém consegue apagar.


Filme: Encontrando Forrester
Diretor: Gus Van Sant
Ano: 2000
Gênero: Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
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