Em Los Angeles, em 1985, Maxine Minx tenta deixar o cinema adulto para virar estrela de Hollywood, enquanto uma onda de crimes reais transforma a cidade em território de medo. Dirigido por Ti West, “MaXXXine” acompanha essa corrida por fama, proteção e sobrevivência seis anos depois dos acontecimentos de “X — A Marca da Morte”. Maxine, vivida por Mia Goth, quer um papel que pode lhe dar entrada no cinema comercial, mas um investigador particular, policiais desconfiados e rastros de sangue ameaçam derrubar sua chance antes que ela chegue ao set.
Maxine Minx (Mia Goth) chega a “MaXXXine” com uma certeza rara em Hollywood. Ela quer ser famosa e não pede desculpas por isso. A frase parece simples, mas em Los Angeles, em 1985, carrega uma espécie de sentença. A cidade vive sob o pânico causado pelos crimes do Night Stalker, nome que assombra noticiários, quartos fechados, ruas vazias e mulheres que aprendem a olhar duas vezes antes de atravessar uma calçada. Nesse cenário, Maxine tenta passar do cinema adulto para o cinema de estúdio, uma travessia cercada por portas entreabertas e gente ansiosa para fechá-las.
Ti West retoma a personagem seis anos depois do massacre de “X — A Marca da Morte”, quando Maxine sobreviveu a uma noite brutal no Texas. Agora, ela mora na capital do cinema americano, trabalha, faz contatos e enxerga na audição para “The Puritan II” a oportunidade de mudar de prateleira. O papel pode levá-la ao público que Hollywood considera legítimo, aquele que compra ingresso, comenta estreia e finge não saber de onde muitas estrelas vieram. Maxine sabe disso e entra no jogo com unhas afiadas, cabelo armado e uma confiança que parece ter sido comprada a prestações muito caras.
A audição coloca Maxine diante da diretora Elizabeth Bender (Elizabeth Debicki), uma cineasta que observa a candidata sem carinho maternal. A cena importa porque resume a tensão do filme. Maxine precisa provar talento, presença e disciplina, mas também precisa convencer uma indústria inteira de que seu passado não será usado contra ela. Elizabeth não trata a atriz como coitada, nem como mascote de escândalo. Ela avalia trabalho, postura e utilidade para o filme. Essa frieza, curiosamente, favorece Maxine, porque a personagem não quer pena. Quer contrato.
O passado bate à porta
A promessa de ascensão começa a rachar quando John Labat (Kevin Bacon), um investigador particular de aparência duvidosa e modos ainda piores, passa a seguir Maxine. Labat sabe coisas sobre o massacre no Texas e usa essas informações para pressioná-la. Ele não surge apenas para assustar. Ele representa a parte de Hollywood que adora transformar mulheres em mercadoria, depois cobra delas uma limpeza moral impossível. A presença dele empurra Maxine para uma zona perigosa, onde cada recado pode virar chantagem e cada silêncio pode custar o papel.
Kevin Bacon interpreta Labat com um prazer quase pegajoso, sem transformar o personagem em caricatura vazia. Ele é desagradável, insistente e meio ridículo, o que torna tudo mais incômodo. Há algo de podre naquele homem que circula por Los Angeles achando que conhece os atalhos da cidade, dos estúdios e da polícia. Quando ele cruza o caminho de Maxine, o filme ganha um pulso de crime urbano. Não basta sobreviver ao assassino dos jornais. Maxine também precisa sobreviver aos homens que vivem de vender segredos.
Nesse ponto, “MaXXXine” se aproxima mais do suspense policial do que do terror tradicional. O medo não vem apenas da possibilidade de uma morte violenta. Vem da exposição. Maxine tenta proteger seu nome, seu emprego, seus amigos e sua chance de sair do lugar onde Hollywood insiste em deixá-la. A cada nova ameaça, a personagem precisa decidir o que pode revelar, o que deve esconder e quem ainda merece alguma confiança. Em uma cidade cheia de holofotes, seu maior risco é ser vista pela pessoa errada.
Polícia, estúdio e suspeita
Os detetives Williams (Michelle Monaghan) e Torres (Bobby Cannavale) entram na história quando pessoas próximas ao universo de Maxine começam a morrer. A polícia sabe que ela tem informações relevantes, mas Maxine aprendeu que falar demais também pode ser uma forma de perder controle. Michelle Monaghan dá a Williams uma firmeza seca, enquanto Bobby Cannavale faz de Torres um investigador mais espalhafatoso, quase impaciente com o teatro de Hollywood ao redor. Os dois pressionam Maxine por respostas, mas ela mede cada palavra porque sua carreira acabou de ganhar prazo.
Leon Green (Moses Sumney), amigo de Maxine e funcionário de uma locadora, oferece um raro espaço de respiro. Ele não aparece apenas para decorar a vida da protagonista. Leon pertence a um pedaço concreto daquela Los Angeles, feito de fitas, balcões, conversas noturnas e filmes que circulam antes de virarem memória. Ao lado dele, Maxine parece menos blindada, embora nunca completamente desarmada. A relação dá ao filme um pouco de calor humano, algo necessário em uma história na qual quase todo mundo parece vender, comprar ou cobrar alguma coisa.
Teddy Knight (Giancarlo Esposito), agente de Maxine, também ocupa um lugar importante nessa engrenagem de ambição. Ele sabe que a cliente tem potencial e tenta protegê-la dos danos que podem destruir uma carreira antes da estreia. Esposito traz elegância e malícia ao personagem, um homem que conhece os bastidores e não se assusta com sujeira. Teddy não é santo, mas também não é ingênuo. Em “MaXXXine”, essa já é uma virtude considerável.
Neon, sangue e fita VHS
Ti West monta o filme com gosto assumido pelos anos 1980, mas não fica apenas no desfile de referências. A estética de “MaXXXine” nasce de ruas iluminadas, clubes, estúdios, fitas VHS, manchetes sensacionalistas e uma cidade que parece filmar a si mesma o tempo todo. O diretor usa esse ambiente para cercar Maxine com imagens. Ela quer aparecer, mas a exposição também entrega pistas, rastros e vulnerabilidades. A fama, aqui, não vem limpa. Vem acompanhada de câmera, boato, vigilância e gente disposta a lucrar com a queda alheia.
O filme tem uma ironia saborosa quando observa o moralismo em torno de Maxine. Hollywood aceita sangue falso, corpos explorados e histórias de perversão, mas torce o nariz para a mulher que tenta sair do lugar onde foi colocada. Essa contradição rende algumas passagens mordazes, especialmente quando a solenidade do cinema comercial bate de frente com o passado da protagonista. Maxine não finge pureza. Essa é uma das graças da personagem. Ela quer vencer com o material que tem, sem escrever uma carta de desculpas para ser aceita no almoço dos respeitáveis.
Mia Goth sustenta “MaXXXine” porque trata Maxine como alguém ferida, mas jamais frágil. A atriz não suaviza a ambição da personagem para torná-la simpática. Maxine pode ser dura, vaidosa, impulsiva e até assustadora quando percebe que está sendo encurralada. Ainda assim, há uma energia muito humana em sua recusa de desaparecer. Ela já viu o que acontece com mulheres transformadas em nota de rodapé, e sua resposta é ocupar o quadro antes que alguém a arquive.
Hollywood cobra caro
“MaXXXine” funciona melhor quando acompanha a personagem tentando manter o papel em “The Puritan II” enquanto a cidade se fecha ao redor dela. A audição, a pressão de Labat, a investigação policial e os assassinatos próximos criam uma disputa por tempo. Maxine precisa chegar ao set, escapar da chantagem, proteger sua versão dos fatos e impedir que o passado defina sua imagem pública. O roteiro avança nesse acúmulo, sem transformar a protagonista em vítima passiva de uma conspiração.
Como crítica ao culto da fama, o filme é mais esperto quando não discursa. Ele prefere colocar Maxine em salas onde sua presença é tolerada com ressalvas, ruas onde sua segurança vale pouco e conversas em que cada informação pode ser usada contra ela. A Los Angeles de Ti West não oferece redenção gratuita. Oferece teste de elenco, contrato incerto, policial na cola e um investigador com faro de abutre. Para Maxine, vencer significa continuar andando quando quase todos esperam que ela vire mais uma história interrompida.
Sem entregar a resolução, “MaXXXine” deixa a sensação de que sua protagonista entende a fama como guerra de permanência. Mia Goth faz de Maxine uma sobrevivente que aprendeu a transformar medo em presença, e Ti West cerca essa presença com crime, terror e sarcasmo. O resultado é um filme irregular em alguns trechos, mas cheio de personalidade, movido por uma mulher que deseja o centro do palco mesmo quando a cidade inteira parece preparar a cortina para sua queda.

