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Dirigido por Alessandro Aronadio, “Já Era Hora” parte de uma confusão simples, daquelas que dariam apenas uma história constrangedora de Réveillon se a vida não tivesse mania de esticar piadas. Dante (Edoardo Leo) beija Alice (Barbara Ronchi) achando que ela é Fede, sua acompanhante naquela noite, porque as duas estão vestidas de modo parecido. Fede reage com um tapa e vai embora. Alice, em vez de desaparecer da cena, permanece. Dali nasce um romance que parece leve, quase casual, mas logo esbarra naquilo que o filme quer observar de perto: a facilidade com que alguém transforma a própria vida afetiva em assunto para depois.

Dante e Alice passam a morar juntos. Ela é pintora, trabalha com arte, ocupa a casa com cores, objetos e uma presença mais livre. Ele vive soterrado por demandas profissionais, sempre atrasado, sempre prometendo compensar a ausência em algum ponto do futuro. A diferença entre os dois não vem de uma briga barulhenta, mas de uma rotina torta. Alice está ali, com amigos, planos e afeto. Dante está quase sempre no escritório, no carro, em ligações ou correndo atrás de uma obrigação que tomou o lugar das outras.

A festa que não espera

A história ganha corpo no aniversário de 40 anos de Dante, em outubro de 2010. Alice e os amigos organizam uma festa surpresa no apartamento do casal, mas ele chega tarde porque o trabalho o prende. Antes de ir para casa, ainda passa para visitar o pai, Marcello (Massimo Wertmüller), que sofre de demência. O atraso não é tratado como detalhe. Ele revela a matemática íntima de Dante. O emprego vem primeiro, o pai entra como culpa, Alice fica com a espera.

Na festa, Valerio (Mario Sgueglia), melhor amigo de Dante desde a infância, entrega a ele ingressos para uma montanha-russa que os dois sempre sonharam em conhecer. O presente é quase infantil, e por isso mesmo tão importante. Valerio oferece tempo compartilhado, lembrança, amizade, um passeio bobo e precioso. Dante, porém, diz que não pode. Está decidido a dedicar a próxima década ao trabalho. Ao soprar as velas, pede mais tempo. O pedido, atendido do pior jeito possível, vira a engrenagem cruel da comédia.

No dia seguinte, Dante acorda e encontra Alice passando mal no banheiro. Ele imagina que ela bebeu demais na festa, mas ela está grávida de 21 semanas. A casa mudou, os móveis mudaram, o calendário saiu do lugar. Dante, assustado, tenta tratar tudo como sonho ou sintoma de estresse, mas Alice age com a naturalidade de quem viveu aqueles meses. Para ela, nada aconteceu de estranho. Para ele, um ano desapareceu sem aviso.

Uma filha chega sem aviso

O salto seguinte é ainda mais desconcertante. Dante acorda achando que a gravidez foi um delírio, mas escuta um bebê chorando. Alice aparece com a filha nos braços e pede que ele prepare a mamadeira. A criança se chama Galadriel, nome que ele descobre quase por acaso, com a cara de quem perdeu uma reunião importante e agora precisa fingir que leu a ata. A graça nasce do pânico doméstico. Dante segura a bebê sem jeito, tenta acompanhar os gestos de Alice e percebe que perdeu meses de convivência.

O médico não encontra nada grave. A hipótese mais confortável é o estresse. Só que o corpo de Dante está saudável, enquanto sua vida afetiva está cheia de buracos. A cada despertar, ele chega a um novo aniversário, mais velho, mais distante de Alice e menos íntimo da própria filha. O filme usa a fantasia sem transformar tudo em espetáculo. O truque é simples e eficiente. Dante não viaja para grandes eventos históricos, nem muda o destino do mundo. Ele perde cafés da manhã, palavras novas, passos de criança e pequenas chances de estar presente.

Essa escolha dá força à comédia e ao drama. Edoardo Leo interpreta Dante com um misto de ansiedade, culpa e espanto permanente. Ele não é um vilão doméstico. É algo mais incômodo. Um homem comum, simpático, inteligente, que acredita ter sempre uma boa razão para faltar. Barbara Ronchi faz de Alice uma personagem firme, afetuosa e ferida, sem reduzi-la à esposa que espera. Ela também muda, trabalha, cria a filha, tenta manter a casa de pé e cansa de ouvir promessas.

O trabalho ocupa a casa

Quando Dante tenta contar a Valerio que está pulando de ano em ano, o amigo não acredita. Parece absurdo demais, e talvez seja mais fácil culpar a pressão profissional. Dante decide pedir demissão, mas a vida lhe prega outra peça. Ao acordar em um novo aniversário, descobre que virou chefe. Ganhou poder, cargo e prestígio, mas perdeu ainda mais espaço em casa. A promoção, que em outro filme poderia soar como vitória, aqui tem cheiro de fatura atrasada.

Alice o leva à terapia de casal. Ali, Dante descobre que sua ausência deixou marcas mais profundas do que ele imaginava. Ele não esteve em casa porque sempre havia outra prioridade. Pior ainda, talvez tenha se ausentado também por tédio, por covardia e por uma incapacidade quase cômica de lidar com a vida quando ela não vinha organizada por metas. O filme acerta ao deixar essa constatação bater sem discurso pesado. A dor aparece na agenda vazia de afeto, na filha que cresce sem ele e na mulher que já não sabe se vale a pena esperá-lo.

Há também uma linha delicada com Marcello, o pai de Dante. A demência do personagem coloca o tempo em outro registro. Marcello esquece, se confunde, escapa das certezas. Dante, por sua vez, lembra do que perdeu apenas quando já não pode voltar ao ano anterior. A relação entre pai e filho dá ao filme uma camada mais amarga, porque a doença de Marcello torna visível algo que Dante fazia por escolha. Um perde a memória. O outro desperdiça presença.

A pressa vira prejuízo

“Já Era Hora” melhora quando mantém os pés nas situações comuns. Uma mamadeira, uma festa, uma consulta, um passeio prometido, uma conversa interrompida. Alessandro Aronadio prefere a leveza ao sermão e deixa que a passagem dos anos apareça nos rostos, nos hábitos e nas distâncias. A montagem, ao cortar de um aniversário para outro, não está ali só para acelerar a história. Ela transforma o tempo em ladrão silencioso, sempre levando um pedaço da vida antes que Dante consiga reagir.

A participação de Valerio também é essencial. Mario Sgueglia dá ao amigo de Dante uma ternura sem excesso. Ele representa aquilo que não cabe na planilha do protagonista. A amizade pede disponibilidade, escuta, passeio adiado, ligação feita no dia certo. Quando Valerio deixa de ser apenas o amigo engraçado e passa a carregar suas próprias urgências, Dante percebe que a pressa não prejudicou apenas seu casamento. Ela tomou também a chance de cuidar de quem sempre esteve por perto.

O filme não inventa uma grande tese sobre a vida moderna. Ele prefere olhar para um homem que pediu mais tempo e recebeu menos presença. Essa ironia sustenta a graça e a tristeza da história. Dante queria uma década para crescer profissionalmente, mas o calendário lhe cobra em aniversários, panquecas, brinquedos, portas fechadas e conversas perdidas. “Já Era Hora” é leve, mas não é ingênuo. Ri da confusão de um pai sem prática com a filha no colo, enquanto mostra que nenhuma agenda devolve uma infância pulada.

A comédia dramática é acessível, sensível e bastante familiar para quem já disse “semana que vem eu resolvo” com convicção demais. Dante passa boa parte do filme tentando alcançar a própria vida, mas ela segue andando sem pedir licença. Quando ele começa a valorizar uma tarde comum, uma refeição sem pressa ou uma conversa em casa, “Já Era Hora” deixa sua melhor impressão. O tempo continua passando, mas alguém finalmente decide ficar sentado à mesa.


Filme: Já Era Hora
Diretor: Alessandro Aronadio
Ano: 2022
Gênero: Comédia/Drama/Fantasia
Avaliação: 3.5/5 1 1
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