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Em “O Dublê”, comédia de ação lançada em 2024 e dirigida por David Leitch, Ryan Gosling vive Colt Seavers, um dublê chamado de volta ao set depois de um acidente grave. A missão seria apenas trabalhar em uma grande produção filmada na Austrália, mas o serviço cresce de tamanho quando o astro Tom Ryder, interpretado por Aaron Taylor-Johnson, desaparece. Para piorar, ou melhorar, dependendo do gosto por confusão, Colt reencontra Jody Moreno, personagem de Emily Blunt, diretora do filme e grande amor que ele deixou pelo caminho sem uma boa explicação.

Colt Seavers é o tipo de profissional que sustenta o espetáculo sem pedir aplauso. Ele cai, apanha, atravessa vidro cenográfico, rola no chão e levanta com a discrição de quem sabe que seu nome dificilmente aparecerá no cartaz. O problema é que o corpo cobra. Depois de um acidente que quase encerra sua carreira, ele se afasta do trabalho, da equipe e de Jody Moreno, com quem vivia uma relação amorosa interrompida pelo silêncio.

A volta acontece quando Gail Meyer, produtora vivida por Hannah Waddingham, chama Colt para trabalhar em “Metalstorm”, uma ficção científica grandiosa comandada por Jody. O convite tem cara de oportunidade profissional, mas carrega outra função. Colt quer se reaproximar de Jody, ainda que não saiba muito bem por onde começar. Ela, por sua vez, precisa terminar seu primeiro grande filme sem deixar que uma antiga ferida sentimental invada o set. Há câmeras, cronogramas, figurinos e uma equipe inteira esperando que os dois ajam feito adultos, tarefa sempre mais difícil quando há amor antigo na sala.

Ryan Gosling acerta o tom de Colt porque trata o personagem com uma mistura de competência física e trapalhada emocional. Ele sabe cair de lugares altos, mas se atrapalha ao pedir desculpas. Domina manobras de risco, mas perde firmeza quando Jody o encara com a decepção de quem foi deixada sem resposta. Essa contradição dá graça ao filme. Colt parece invencível quando está preso a cabos de segurança e vulnerável quando precisa sustentar uma conversa sem capacete.

Jody comanda o set

Jody Moreno não é apenas o interesse amoroso que espera o retorno do herói. Emily Blunt dá à personagem uma presença firme, irônica e cansada na medida certa. Ela está no comando de uma produção cara, barulhenta e cheia de gente opinando. Precisa dirigir atores, controlar cenas de ação e defender sua autoridade diante de produtores que tratam cada atraso como ameaça ao orçamento. A chegada de Colt complica esse equilíbrio, porque ele traz ajuda técnica, mas também uma memória incômoda.

A relação entre os dois funciona porque o filme permite que o romance tenha atrito. Jody não se derrete apenas porque Colt reaparece com boa aparência e olhar arrependido. Ela cobra postura, encara a ausência dele e mantém o trabalho em movimento. Colt tenta compensar o sumiço com boa vontade, coragem e algumas quedas muito bem executadas, mas nada disso substitui uma conversa honesta. O reencontro ganha leveza porque os dois se gostam, mas também porque nenhum deles sai ileso da própria teimosia.

David Leitch, que veio do universo dos dublês antes de virar diretor, conhece bem esse ambiente. Em “O Dublê”, ele usa o set de filmagem como um espaço de vaidade, risco e improviso. O filme não transforma a profissão em discurso solene. Prefere mostrar a rotina de quem faz o perigo parecer entretenimento, enquanto astros e produtores circulam com mais proteção do que responsabilidade. Há uma piada fina nessa inversão. Quem se machuca quase nunca é quem recebe o maior salário.

O astro some do mapa

A história muda de marcha quando Tom Ryder desaparece. O personagem de Aaron Taylor-Johnson é uma estrela de cinema vaidosa, cercada por privilégios e acostumada a ser tratada como patrimônio da produção. Seu sumiço ameaça “Metalstorm”, coloca Gail em alerta e empurra Colt para uma investigação improvisada. O dublê precisa descobrir onde está o astro, impedir que o filme de Jody desmorone e ainda sobreviver a pessoas pouco interessadas em facilitar sua vida.

Tom Ryder é divertido porque representa uma caricatura reconhecível sem perder função dentro da trama. Ele é o rosto vendido ao público, mas depende de uma cadeia de profissionais invisíveis para parecer maior do que é. Colt, que deveria apenas substituí-lo nas cenas perigosas, passa a ocupar o espaço que o astro deixou vazio. Não por fama, mas por necessidade. Se Tom não volta, Jody perde tempo, Gail perde dinheiro e Colt perde a chance de provar que ainda pode ser confiável.

Nesse ponto, “O Dublê” mistura comédia, ação e investigação sem perder a clareza do enredo. Colt segue pistas, cruza com figuras ligadas a Ryder e se aproxima de Alma Milan, personagem de Stephanie Hsu, assistente que guarda informações importantes sobre o astro. Winston Duke também se destaca como Dan Tucker, coordenador de dublês e amigo de Colt, presença que ajuda a manter a aventura com os pés no chão, ainda que quase tudo ao redor envolva pancada, perseguição e gente mentindo com muita convicção.

A ação tem bastidor

As cenas de ação têm graça porque nascem de um lugar específico. Colt não entra em perigo para parecer corajoso. Ele faz isso porque o trabalho exige, porque alguém precisa salvar a filmagem ou porque a busca por Tom Ryder fecha o cerco ao seu redor. Essa diferença dá peso às sequências mais absurdas. Mesmo quando o filme abraça o exagero, há sempre uma razão concreta para Colt estar ali, tentando sair inteiro de mais uma confusão.

Leitch também sabe usar o corpo de Ryan Gosling como fonte de comédia. Colt apanha com dignidade, sofre com charme e insiste em manter uma pose minimamente profissional quando tudo ao redor já virou bagunça. O filme ri do constrangimento, não apenas da pancadaria. Há um prazer especial em ver um personagem treinado para o risco perder o controle diante de sentimentos mal resolvidos. Ele pode atravessar uma cena perigosa com precisão, mas basta Jody fazer uma pergunta pessoal para o chão parecer mais instável.

O roteiro se apoia bastante nessa tensão entre bastidor e espetáculo. Enquanto “Metalstorm” tenta nascer dentro do filme, “O Dublê” revela o trabalho de quem torna esse tipo de fantasia possível. Cabos, marcações, ensaios, quedas e duplicações entram na narrativa sem virar manual. A técnica aparece porque afeta o tempo da história. Uma cena atrasada ameaça a produção. Um astro ausente paralisa a equipe. Um dublê ferido muda a rotina de muita gente.

Romance entre quedas e prazos

“O Dublê” transforma uma aventura barulhenta em uma história sobre gente tentando recuperar confiança. Colt quer voltar a trabalhar, mas também quer ser visto por Jody como alguém que merece uma segunda chance. Jody quer terminar seu filme, mas precisa lidar com o retorno de um homem que saiu de cena quando ela mais precisava de uma explicação. Nenhum dos dois tem muito tempo para resolver isso com calma. O set não espera.

O filme poderia se perder no excesso de piadas e perseguições, mas encontra bom ritmo quando mantém Colt e Jody no centro da confusão. Gosling e Blunt têm química, timing e uma energia de casal que ainda se conhece bem, mesmo depois da mágoa. A troca entre eles sustenta o lado romântico sem deixar que a aventura pare. Já Aaron Taylor-Johnson se diverte no papel de Tom Ryder, um astro que parece acreditar na própria embalagem até quando tudo ao redor começa a desabar.

“O Dublê” é leve, ágil e mais esperto do que sua aparência de grande brincadeira sugere. David Leitch homenageia os profissionais que fazem o cinema parecer fácil, mas sem transformar a crítica em cartaz de campanha. O filme prefere a ação, a comédia física e o romance de bastidor. Colt termina a história ainda cercado por riscos, prazos e pessoas cobrando serviço. A diferença é que, desta vez, ele aprende que voltar para a cena também exige olhar para quem ficou esperando fora do quadro.


Filme: O Dublê
Diretor: David Leitch
Ano: 2024
Gênero: Ação/Comédia/Drama/Romance
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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