O título “A Vida é Traição” já estava na capa do último romance de Raimundo Carrero. Depois da morte do autor, hoje, 16 de junho, aos 78 anos, ficou mais árduo passar por ele na estante sem parar por um instante. Carrero passou a vida escrevendo sobre aquilo que permanece depois da falta. Agora, a falta alcançou também o nome dele.
Ele morreu, deixando uma biografia que marcou de forma definitiva a literatura brasileira: o menino de Salgueiro, o homem do Recife, o jornalista do Diário de Pernambuco, o escritor próximo de Ariano Suassuna e do Movimento Armorial, o professor de oficinas literárias, o acadêmico.
Nos livros de Carrero, a mãe ausente não descansa. O coração parece sempre prestes a entrar em erupção. A oração vem atravessada por medo, temor e tristeza. A família oferece abrigo e, depois, apresenta a conta — às vezes muito, muito tempo depois. O desejo quase nunca aparece sem que alguma coisa nele já esteja marcada por culpa, remorso e desdita. Deus não entra para aliviar ninguém, e o sertão não surge apenas como um ponto obscuro no mapa. O sertão é um organismo vivo e cruel.
Ler Carrero apenas como escritor regional diminui sua ficção. Tirar Pernambuco de seus livros para deixá-los mais limpos também diminui. Ele escreveu com Salgueiro, Recife, redação, rua, quarto fechado e assombração por perto. Faz lembrar Juan Rulfo. O próprio Carrero dizia que “Pedro Páramo” foi uma de suas escolas, sobretudo como modelo de construção narrativa.
Salgueiro, onde nasceu em 1947, é uma parte viva de sua biografia e pulsa, arde, em toda a sua literatura. O sertão já havia sido descrito de forma áspera na literatura brasileira quando Carrero começou a publicar: seca, chão rachado, coragem e miséria diária. Ele não abandonou o que veio antes. Não inventou um novo sertão; criou um território próprio, com suas idiossincrasias e consequências.
Em seus livros, a aridez é uma presença constante e devastadora. Há momentos em que a paisagem recua, e o que sobra são duas pessoas no mesmo cômodo tentando não dizer a frase que ambas conhecem quase por inércia.
Antes do escritor laureado, havia o menino mexendo nos livros do irmão, guardados no meio da vida comercial da família, à maneira de Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, vendendo chita no balcão. Mercadoria, poeira, rotina. A leitura chegou misturada à casa, sem anúncio de grandeza. O menino abria páginas sem saber que dali sairiam Bernarda Soledade, sombras severas, almas em ruínas, a Perna Cabeluda, jornais, alunos, prêmios e salas acadêmicas. Era uma criança lendo enquanto a família seguia trabalhando.
O Recife veio depois, trazendo as manhãs de colégio, a música, o jornal e uma cidade atravessada por vozes, fantasmas, solidão e pobreza. No “Diário de Pernambuco”, a escrita encontrou o deadline, as noites de fechamento, as conversas de corredor, a notícia chegando, o texto precisando sair dentro do prazo. Entrega-se o que precisa ser entregue. No dia seguinte, há outra página esperando.
Essa vida de jornal tira Carrero do retrato do romancista apartado da cidade. Ele conhecia o Recife também por seus rumores, histórias, praças e cheiros. A Perna Cabeluda, lenda urbana ligada a ele, ainda reverbera em cada leitor. Uma perna solta, peluda e agressiva anda pela cidade, ataca, some, volta pela boca de quem conta. O riso quase sempre vem junto do susto.
A perna peluda e a alma em ruínas não são a mesma coisa, mas pertencem ao mesmo Recife que aprendeu a rir de certas assombrações sem precisar — ou querer — explicá-las.
Ariano Suassuna teve um peso gigantesco na formação de Carrero, embora essa proximidade não baste para explicar o discípulo. O Movimento Armorial ofereceu a muitos artistas nordestinos uma forma de trabalhar com literatura, música, gravura, teatro e humor sem reduzir a linguagem popular a artesanato de feira de domingo. Em “Romance d’A Pedra do Reino”, de Suassuna, esse material aparece em abundância, com vozes que se atropelam, se enredam e se multiplicam numa alegria quase incontrolável de conter.
Carrero passou por essa escola, mas encontrou outro caminho. Seus romances navegam pelo momento em que a celebração já não ajuda tanto, quando a família volta para casa, a porta se fecha e o barulho fica do lado de fora.
Nessas casas, o pedido de perdão, quando aparece, chega tarde e envergonhado. A violência passa de uma pessoa a outra numa espécie de silêncio abafado. Ariano abriu uma estrada de invenção para muitos escritores. Carrero a seguiu até certo ponto, até o lugar em que a conversa parece vigiada por alguém que já não está na sala: um fantasma, uma alucinação, uma alegoria triste de vidas sem redenção.
Graciliano Ramos parece sempre presente na prosa de Carrero. “Vidas Secas” retirou o verniz da paisagem e deixou uma língua dura, brutal, seca, sem adornos. Carrero compartilha parte dessa recusa, embora seus personagens padeçam de faltas que nem sempre se veem por fora. São percalços que se revelam aos poucos. Falta afeto, falta perdão e, muitas vezes, falta uma palavra capaz de evitar o dano antes que ele se instale.
A miséria social não desaparece de seu horizonte, mas muitas tragédias de sua ficção vêm de verdades guardadas no fundo dos baús, da religião que acusa e do desejo que nasce acompanhado de punição.
As casas de Carrero protegem pouco, porque guardam mortos, cobranças e verdades que ninguém teve coragem de dizer. “Sombra Severa”, “Maçã Agreste”, “Somos Pedras que se Consomem”, “As Sombrias Ruínas da Alma” e “A Minha Alma é Irmã de Deus” não chegam ao leitor com títulos amigáveis. Ao contrário: parecem feitos para incomodar. A maçã vem agreste, a sombra pesa, a alma aparece alquebrada, e Deus se aproxima de uma figura cruel. Lembram uma casa fechada por muito tempo, com móveis que ninguém mudou de lugar e uma reza repetida sem que se saiba se é fé, costume ou desespero.
A dor costuma vir explicada como se fosse um grito. Depois da leitura, permanece um gosto incômodo, como ar parado num quarto fechado há décadas.
Seus romances não se abrem como mensagens prontas. Quem entra neles encontra famílias nas quais a redenção não espera no fim do corredor. Quando culpa, fé, morte, desejo e família são tratados de forma crua, cruel e brutal, a própria escrita precisa carregar parte dessa resistência.
“A Vida é Traição” não precisa ser lido como uma despedida planejada. Como J. D. Salinger, Carrero sempre deixou claro que não queria flores depois de morto. O título se ajusta à obra porque Carrero escreveu, durante décadas, contra a parte da vida que promete ordem e, sem aviso, entrega tristeza, perda e solidão.
A morte da mãe, a falha do corpo, a fé sem paz, a família que fere e a memória que guarda o que deveria ter ido embora há muito tempo entram no mesmo campo, sem obedecer a uma lógica pacificadora. É como se estivéssemos condenados ao fracasso, quase eterno, deixando no leitor uma inquietação que já não depende da presença de quem falou ou escreveu.
A morte de Raimundo Carrero encerra um ciclo da literatura brasileira e deixa uma pergunta incômoda para qualquer homenagem excessivamente delicada: como lembrar um autor que perde força quando é tratado com polidez demais? Como falar de uma obra que não cabe em meia dúzia de palavras sem traí-la um pouco? No caso de Carrero, a página fechada não encerra o desconforto. Alguma coisa continua se mexendo depois.
A figura do escritor premiado e acadêmico continua pertencendo a ele, mas já não basta. Há também o menino de Salgueiro, perto do balcão da loja, com um livro nas mãos. Há o jornalista escrevendo no silêncio das noites de fechamento em alguma redação do Recife. Há ainda o romancista, já longe da infância e do jornal, diante da página, atento ao que a culpa conseguia dizer quando ninguém mais queria — ou se recusava — a ouvi-la.
A vida de Carrero atravessou livros, jornais, mestres, alunos, monstros, perdas e personagens sem paz. Sua resposta à traição da vida não foi a paz dos conformados. Nos livros, a casa continua fechada. Lá dentro, alguém ainda procura as palavras.

