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A solidão destes livros não precisa de quarto trancado, abandono espetacular ou distância do mundo, porque aparece em lugares muito mais comuns, como um estudante que para de ir às aulas e anda por Paris sem plano, um homem velho que observa a casa enquanto a morte se aproxima, um sujeito que passa anos esperando um acontecimento excepcional, uma mulher em Viena cercada por Ivan e Malina, outra que manda o marido embora e fica com o filho, um narrador que caminha pelo leste da Inglaterra depois de uma internação, um escritor que tenta entender o pai morto por meio de fotografias, objetos e lembranças soltas.

São livros traduzidos no Brasil e escolhidos aqui porque mostram pessoas entendendo alguma coisa sobre si tarde demais, quando a rotina já se repetiu por anos, quando uma relação já se gastou, quando a juventude ficou para trás ou quando a morte fechou uma conversa que ainda precisava acontecer. O que permanece não é uma resposta geral sobre solidão ou autoconhecimento, mas uma cena concreta em que alguém anda, espera, olha a família, arruma a casa, atravessa uma paisagem, abre gavetas e tenta dar nome ao que ficou sem dizer.


Um Homem que Dorme, de Georges Perec

Um estudante em Paris deixa de ir às aulas, passa a dormir em horários irregulares e atravessa a cidade olhando ruas, fachadas, quartos, corredores e cafés, como se quisesse diminuir o contato com tudo que antes organizava seus dias. Perec não explica esse afastamento por um motivo único, nem tenta enobrecer a apatia do personagem, preferindo mantê-lo entre o quarto e a rua, entre a recusa de responder ao mundo e a impossibilidade de desaparecer de vez. O livro avança por gestos pequenos, caminhadas, repetições e horas vazias, até que a solidão apareça na rotina de alguém que continua ali, mas tenta participar cada vez menos do próprio dia.


O Som da Montanha, de Yasunari Kawabata

Shingo Ogata vive cercado pela esposa, pelo filho e pela nora, mas a idade faz com que tudo ao redor pareça mais frágil e mais difícil de ignorar, dos ruídos da casa aos sinais do corpo, das lembranças da juventude ao modo como os afetos mudaram dentro da família. Kawabata evita explicações fortes e deixa que a atenção do velho recaia sobre cenas pequenas, às vezes domésticas demais para parecerem decisivas, até que o leitor perceba quanto ficou escondido nas relações mais próximas. A solidão de Shingo aparece dentro da casa, enquanto ele observa pessoas conhecidas como se finalmente notasse a distância que o tempo colocou entre elas.


A Fera na Selva, de Henry James

John Marcher acredita que sua vida será marcada por um acontecimento excepcional, algo ainda por vir que explicará sua diferença em relação aos outros, e essa espera ocupa o lugar que poderia ter sido ocupado por uma relação verdadeira com May Bartram. Ela permanece ao lado dele durante anos, acompanha sua expectativa e entende mais do que Marcher consegue ver, enquanto ele continua voltado para um futuro imaginado. Henry James coloca a crueldade na demora, nas visitas, nas conversas, no tempo gasto ao lado de alguém que estava presente, mas só será compreendido quando já não houver como voltar.


Malina, de Ingeborg Bachmann

Em Viena, a narradora vive entre Ivan e Malina enquanto escreve cartas, atravessa diálogos, sonhos e cenas de medo, sem conseguir organizar a própria experiência numa sequência estável. O romance se quebra porque a personagem também parece se partir, cercada por amor, dependência, lembranças e uma pressão interna que não encontra forma tranquila de expressão. Bachmann não entrega uma explicação fechada sobre essa mulher, nem transforma sua dor em aprendizado claro, preferindo mostrar alguém que tenta falar enquanto tudo se mistura. A solidão aparece no modo como ela divide o espaço com outros nomes e outras presenças, mas encontra cada vez menos lugar para a própria voz.


A Mulher Canhota, de Peter Handke

Marianne pede ao marido que vá embora e passa a viver com o filho, sem transformar a decisão numa cena dramática nem oferecer ao leitor uma longa justificativa para o gesto. O livro fica no dia seguinte, nos telefonemas, nas visitas, nas refeições, nas pequenas tarefas e nos deslocamentos que fazem a casa parecer diferente depois da saída do marido. Handke acompanha esse intervalo sem apressar a interpretação, deixando que a separação apareça menos como explicação psicológica e mais como mudança concreta de ritmo, espaço e convivência. Marianne continua vivendo com o filho, dentro de uma casa que precisa ser ocupada de outro modo.


Os Anéis de Saturno, de W. G. Sebald

Depois de uma internação hospitalar, o narrador caminha pelo leste da Inglaterra e encontra, ao longo do percurso, ruínas, leituras, paisagens, biografias e histórias ligadas a destruição e desaparecimento. O livro começa como deslocamento pelo território, mas a caminhada logo puxa lembranças de outras épocas, imagens de lugares visitados, vidas encerradas e cenas que parecem surgir porque alguma coisa no caminho as chamou. Sebald não faz da viagem uma busca por resposta pessoal, embora a presença do narrador esteja em cada associação que ele escolhe seguir, como alguém que olha para fora durante muito tempo para não nomear diretamente o que acontece consigo.


A Invenção da Solidão, de Paul Auster

A morte do pai leva Paul Auster a tentar reconstruir a figura de um homem que esteve perto no espaço doméstico, mas distante nas conversas, nos afetos e nos gestos que poderiam ter aproximado os dois. Fotografias, objetos, episódios familiares, lembranças dispersas e frases incompletas entram nessa tentativa de compreender alguém que continua escapando mesmo depois da morte. A primeira parte se concentra no pai; a segunda abre o livro para a paternidade, o acaso, a memória e a escrita, sem transformar a investigação em resposta final. Auster mexe em gavetas, imagens e restos de conversa, enquanto o pai permanece difícil de alcançar.

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