Coisa sem graça essa de comemorar as datas redondas. Dez, vinte, trinta, até cem anos da edição de um livro, disco, filme ou peça de teatro. São as tais efemérides, boas para encher páginas da imprensa. Mas é difícil resistir: há um prazer de mostrar às novas gerações o que a cultura foi um dia capaz de oferecer. Pitadas de nostalgia, com certeza, e, sobretudo, de reconhecimento não fazem mal a ninguém. Nesse inverno de descontentamentos, aqui por essas bandas, duas celebrações de 40 anos tocam fundo as pessoas.
A primeira da qual vamos falar é o aniversário, neste mês, do lançamento de “The Queen Is Dead”, álbum que colocou o grupo inglês The Smiths no mundo todo. A segunda será em julho, com as quatro décadas do disco “Dois”, da Legião Urbana de Renato Russo. Havia um oceano que separava os dois fenômenos musicais e geracionais. Porém foram eles que, segundo o consenso, definiram boa parte da cultura jovem nos anos 1980, tanto na Inglaterra como no distante Brasil.
Os ingleses estavam em estado de choque com a novidade de Margaret Thatcher, a primeira-ministra, a dama de ferro, que afundou de vez o país na insignificância global sob o pretexto de salvá-lo. O reino britânico se foi, mas a fama pessoal daquela senhora se espalhou pelo mundo. Aquele ambiente só poderia dar em melancolia, tão bem captada pelo The Smiths. Entende-se por que Renato Russo sugaria o espírito smithiano para narrar a desilusão da virada brasileira de ditadura para a democracia.
“Saiu… os corações mais trêfegos já podem se tranquilizar, podem jogar no lixo todo o estoque de Valium e Diempax, dar folga para as unhas e apagar o cigarro. Toda a angústia e ansiedade da espera acabou. Já se pode trocar a insônia pelo pesadelo: até que enfim saiu, na Europa, o novo LP dos Smiths”, escreveu o historiador Nicolau Sevcenko, na edição de 19 de junho de 1986, no jornal “Folha de S. Paulo”. Ele estava em Londres, apenas três dias após o lançamento de “The Queen Is Dead”.
É um assombro ler o texto de Sevcenko, com seu olhar atento para os movimentos da sociedade e da cultura. Ele acompanhou de perto a atmosfera de descontentamento dos ingleses. Em janeiro de 1986, por exemplo, os Smiths embarcaram na turnê Red Wedge, contra Thatcher e a favor do Partido Trabalhista. Diversos grupos e artistas de rock fizeram uma campanha para mobilizar a população contra os conservadores e as políticas que se tornariam conhecidas pelo mundo como neoliberais.
Em seu último texto, antes de morrer em agosto de 2014, Sevcenko se lembrou daqueles dias londrinos: “As universidades, portanto, como o restante da sociedade, estavam em franca ebulição. A química que catalisou essa turbulência, naquele verão de 86, foi gerada pela frente ampla de resistência chamada de Cunha Vermelha (Red Wedge). Criada por músicos como Billy Bragg, Paul Weller e Jimmy Somerville, ela reunia toda uma gama de ativistas independentes ligados ao mundo das artes e da cultura”.
Melancolia do rock
Foi nesse ambiente quente e politizado que a dupla principal dos Smiths, o cantor Steven Morrissey e o guitarrista Johnny Marr, soltou o álbum “The Queen Is Dead”, com seus ínfimos 37 minutos e dez canções. Morrissey e Marr são uma daquelas parcerias que, sem exageros, se comparam a John Lennon & Paul McCartney, dos Beatles, e Mick Jagger & Keith Richards, dos Rolling Stones. Eles inventaram e aperfeiçoaram o formato da canção pop/rock de três minutos que levou os jovens à loucura.

Sevcenko apontou muito bem o que era a mágica dos Smiths no disco de 1986: “a melodia órfica de Steven Morrissey, a música e os arranjos de guitarra de Johnny Marr, a poesia insidiosa e o tom melancólico do grupo que definiu a atmosfera cultural dos anos 1980. Até que enfim saiu o novo LP dos Smiths. Agora tudo está salvo. Aliás, tudo, exceto aquela estranha pontada que a gente sente no peito toda vez que pensa (da qual, portanto, muita gente está livre) — essa tende a aumentar em frequência e intensidade — exceto a paz platônica que recobre o palácio de Buckingham e os prédios do Parlamento, tão propícia para o crescimento do bolor (sim, bolor se alimenta do silêncio)”.
O alvo das letras de Morrissey era o estado de coisas que havia tomado conta do poder na Inglaterra. O disco abre com a canção-título, um rock com as guitarras de Marr mais distorcidas e a batida de bateria mais forte que o normal: “A rainha está morta, moçada/ e é tão solitário num limbo/ a rainha está morta, moçada, podem acreditar em mim” (a tradução é de Sevcenko). Há o gosto pela crítica social que vinha do punk inglês, no ano mágico de 1977, mas com uma melancolia mais acentuada.
“O ‘a rainha está morta, moçada’ soa na linhagem do radicalismo juvenil, algo como o ‘Deus está morto’ de Nietzsche soou no mundo da filosofia. Não, não é apenas o equivalente pós-76 de ‘o sonho acabou’ do Lennon pós-68. É muito, muitíssimo mais. Lennon se referia especificamente à contracultura dos anos 1960 e por isso usou a metáfora do sonho (a imaginação, o desejo). Morrissey usa o símbolo universal do poder: a monarquia”, notou Sevcenko, sempre ligado às questões históricas e contemporâneas.
A novidade de Morrissey e Marr estava no resgate de um tipo de canção curta, a ser veiculada em compactos simples. A produção dos Smiths foi, por isso, muito intensa e de poucos anos de duração. Eles resgataram a música pop e dançante dos anos 1960, como a soul music negra da Motown, e fizeram o encontro desse som com a energia do rock, de David Bowie, T-Rex, New York Dolls e Patti Smith. O nome do grupo foi, aliás, uma homenagem a Patti, hoje uma escritora de alto calibre e reconhecimento.
Ironia romântica
Se o som dos Smiths sacudia o corpo, as letras de Morrissey tocavam o coração do ouvinte. O humor, o sarcasmo, começam na faixa de abertura. O que se acentua é a ironia romântica com os outros e consigo mesmo. Não é por acaso que a música “Cemetry gates” fala de um encontro num cemitério e cita os poetas Keats, Yeats e o fetiche Oscar Wilde. Nota-se nesses trechos um traço “refratário” (uma expressão ao gosto de Sevcenko) dos Smiths, que nadavam contra a maré moderna da música dos anos 1980.

Os topetes de Morrissey e Marr, com jaquetas de couro, poderiam ser de filmes de James Dean ou Elvis Presley. Eles tinham esse gosto de inovar a partir de referências do passado. A capa de “The Queen Is Dead” traz uma imagem do ator Alain Delon, no filme “Terei o Direito de Matar” (1964). Todos os álbuns e compactos têm imagens de capa que entraram para a história do rock. E alguns videoclipes dos Smiths foram dirigidos por Derek Jarman, mestre requintado do cinema inglês pós-moderno.
A ironia de Morrissey atingiu um nível máximo na canção “Bigmouth strikes again”. Ele se coloca no papel do falastrão, o nosso bocudo, o língua-afiada, o linguarudo. “Agora eu sei como Joana d’Arc se sentiu/ quando as chamas subiram até o seu nariz romano/ e o seu walkman começava a derreter”. Até hoje Morrissey é um mestre de declarações confusas e até absurdas. E é jogado na fogueira por isso. Em shows recentes, ele troca o “walkman” original da música por “iPod” que começa a derreter.
O álbum de 1986 tem, por outro lado, as músicas românticas que embalaram ouvintes melancólicos. “I know it’s over” é a balada mais impressionante dos anos 1980 e, quem sabe, de todos os tempos. Ganhou uma versão belíssima de Jeff Buckley e que deixou Morrissey lisonjeado. O ponto alto dessa junção melancolia/ironia está, sem dúvida, em “There is a light that never goes out”. Essa música tem um lado decadentista e irônico de Wilde, mas foi bem atualizada para aquela Inglaterra conservadora.
“Me leve esta noite/ para onde haja música e gente/ que seja jovem a vida,/ dirigindo o seu carro/ Eu nunca, nunca mais quero ir para casa/ porque eu não tenho nenhuma/ nunca mais/ …/ e se um ônibus de dois andares/ nos esmagar os dois/ morrer ao seu lado/ que maneira celestial de morrer/ …/ oh, me leve para qualquer lugar, não importa/ e ao passar sob o escuro do viaduto”, diz a letra de “There is a light that never goes out”, na tradução de Nicolau Sevcenko.
Universo smithiano
Os 40 anos de “The Queen Is Dead” são um convite para se revisitar ou conhecer a obra musical desses ingleses que são filhos de imigrantes irlandeses, a quem coube uma vida modesta na cidade industrial de Manchester. O filme “England Is Mine — Descobrir Morrissey” (2017) mostra a adolescência do cantor e está no Prime Video. Trata-se de um passeio pela virada dos anos 1970 para os 1980, naquele país sufocado por uma crise social e pelo ensaio dos delírios conservadores.
Aos iniciados nesse universo, vale a pena ler o livro “Mozipédia — A Enciclopédia de Morrissey e dos Smiths”. O autor Simon Goddard mapeou todas (!) as milhares de referências externas contidas nas canções e contou as histórias de álbuns e integrantes da banda. São mais de 700 páginas. Outra boa pedida é a biografia “The Smiths — A Light That Never Goes Out”, de Tony Fletcher e traduzida para o português pela editora Best Seller. As histórias completas estão lá, incluindo o rompimento de Morrissey e Marr.
O impacto dos Smiths no Brasil pode ser medido pela sonoridade do disco “Dois”, da Legião Urbana. Renato Russo e seus companheiros deixaram pistas evidentes em canções como “Quase sem querer”, “Tempo perdido” e “Andrea Doria”. Mas não se trata de cópia, mas de uma leitura que aclimatou o estilo smithiano à cultura brasileira. Criou-se uma conexão definitiva entre Brasília e Manchester. Mas essa conexão merece ser vista em mais detalhes em outro texto, para relembrar aquele ano mágico de 1986.

