Muita gente abre um livro para descansar, matar o tempo ou esquecer o noticiário. Os romances abaixo não foram escolhidos porque confortam, explicam ou entregam uma boa frase para sublinhar. Eles pedem paciência, algum desconforto e uma disposição rara hoje em dia, a de aceitar que nem todo livro precisa receber o leitor com tapete na porta.
A seleção passa por França, Estados Unidos, Argentina, Noruega, Áustria, Japão, Nigéria e Austrália. Não há aqui tentativa de montar um mapa exótico. O que aproxima esses autores é a maneira como tratam vidas emperradas, casas fechadas, cidades sujas, esperas longas, obsessões discretas e personagens que parecem sempre um pouco fora do lugar. Alguns livros são frios na forma. Outros vêm de uma imaginação mais oral, menos domesticada pelo romance europeu. Em todos, há alguma coisa que resiste ao consumo rápido.
Quem entrar neles esperando conforto talvez saia cedo. Quem ficar vai encontrar livros que não se entregam de primeira.
A Vida Modo de Usar, Georges Perec
Um edifício em Paris vira o lugar onde Georges Perec guarda apartamentos, objetos, lembranças, coleções e projetos interrompidos. O livro acompanha essas vidas como quem abre gavetas em uma casa antiga e encontra nomes quase apagados, pequenas derrotas, manias particulares e coisas que só fariam sentido para quem já não está ali. A narrativa não anda em linha reta. Um móvel, uma carta ou um detalhe doméstico podem ocupar a página por tempo suficiente para lembrar que a vida quase nunca se organiza como os romances costumam prometer.
Stoner, John Williams
John Williams acompanha um professor universitário dos Estados Unidos que passa pela vida quase sem ser notado. O casamento pesa, a carreira não se torna brilhante, as derrotas se acumulam em silêncio e os raros momentos de beleza não chegam para compensar nada. O homem ama a literatura e tenta conservar alguma dignidade num ambiente que vai ficando menor a cada ano. O livro não oferece virada grandiosa nem prêmio escondido no fim. O que sobra é uma vida comum, vista sem piedade e sem desprezo.
Zama, Antonio Di Benedetto
Um funcionário colonial permanece em uma província distante, esperando uma transferência que não chega. Na Argentina, Antonio Di Benedetto escreveu esse homem preso ao próprio orgulho, sempre aguardando uma autoridade que ainda se lembre de seu nome. Ele quer sair dali, ser chamado, ser reconhecido, voltar a ocupar algum lugar que confirme sua importância. A cada adiamento, a espera deixa de ser um problema externo e começa a tomar o corpo, o desejo e a cabeça. A humilhação entra devagar, como calor ruim dentro de um quarto fechado.
Os Sete Loucos, Roberto Arlt
Buenos Aires aparece como uma cidade onde dívidas, delírios e planos criminosos se misturam sem muito esforço. Roberto Arlt acompanha um homem quebrado por dentro que se aproxima de conspiradores, inventores, falsos salvadores e figuras dispostas a imaginar futuros grotescos. O livro não tenta parecer elegante. A frase vem áspera, a cena traz sujeira, a cidade não tem pose de cartão-postal. Arlt fica perto de gente que a literatura mais limpa costuma deixar do lado de fora, e dali tira um romance torto, nervoso, difícil de trocar por qualquer outro.
Os Pássaros, Tarjei Vesaas
No interior da Noruega, um homem tratado como incapaz percebe sinais que os outros não veem. Ele vive com a irmã e registra o voo de uma ave, uma pausa na conversa, uma mudança pequena no ar, uma ameaça que ninguém mais parece notar. Tarjei Vesaas não transforma essa sensibilidade em adorno. O personagem tem uma atenção que o ajuda a perceber o mundo, mas não o protege das pessoas. O romance anda sem pressa e deixa no leitor a presença incômoda de alguém que entende mais do que consegue dizer.
A Parede, Marlen Haushofer
Uma mulher fica isolada nos Alpes depois que uma barreira invisível a separa do restante da humanidade. Na Áustria, Marlen Haushofer não usa essa situação para fazer barulho. A narrativa acompanha frio, comida, animais, trabalho diário, medo e adaptação a uma vida sem testemunhas. Plantar, guardar, observar e cuidar deixam de ser tarefas pequenas. Quando não há mais ninguém para confirmar seu nome, sua função ou sua história, a protagonista continua presa aos gestos necessários para atravessar o dia seguinte.
A Gravidade das Circunstâncias, Marianne Fritz
O livro é curto, mas não passa depressa. Marianne Fritz, também na Áustria, escreve sobre guerra, casamento, maternidade e danos que continuam agindo quando os fatos principais já ficaram para trás. A narrativa não arruma as feridas para facilitar a leitura. A impressão é de entrar em uma casa onde tudo parece no lugar, embora nada possa ser tocado sem levantar alguma coisa antiga. A gravidade do título aparece nos vínculos, nos corpos, nas lembranças e nos objetos que uma família carrega sem conseguir dizer exatamente o que está carregando.
Mulher das Dunas, Kobo Abe
Um homem interessado em insetos acaba preso no fundo de uma cova, dentro de uma casa que precisa ser defendida da areia todos os dias. Na ficção japonesa de Kobo Abe, cavar deixa de ser uma tarefa provisória e vira rotina de sobrevivência. O absurdo da situação não impede o reconhecimento. Há trabalho sem fim, negociação com a própria prisão, desejo de fuga e risco de acostumar o corpo ao que antes parecia intolerável. A areia chega à pele, à cama e ao modo como ele começa a pensar a saída.
O Bebedor de Vinho de Palma e seu Finado Fazedor de Vinho na Cidade dos Mortos, Amos Tutuola
Amos Tutuola acompanha, na Nigéria, um homem que atravessa mundos fantásticos em busca de seu fornecedor de vinho de palma. As criaturas, mudanças de forma e perigos do caminho seguem uma lógica ligada à oralidade iorubá, distante do romance europeu convencional. O livro não reduz essa diferença para facilitar a leitura. Ele avança como uma história contada diante de outras pessoas, com desvios, exageros, humor e sustos que entram sem pedir autorização à ideia ocidental de bom comportamento literário.
As Planícies, Gerald Murnane
Um cineasta chega ao interior da Austrália interessado em filmar aquele território e acaba cercado por proprietários, teorias e modos estranhos de olhar a paisagem. Gerald Murnane escreve como se a ação principal estivesse no intervalo entre ver uma coisa e acreditar que ela foi compreendida. O romance quase não se apoia em acontecimentos externos. Fica mais interessado nas ideias que os personagens constroem em torno do lugar, nas distâncias que inventam e na demora que impõem ao olhar. A leitura pede paciência porque o livro permanece nos mesmos lugares por mais tempo do que o leitor espera.

