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Em “As Cores do Mal: Preto”, o promotor Leopold Bilski, vivido por Jakub Gierszał, chega a uma pequena cidade polonesa para cuidar do desaparecimento de um menino. Adrian Panek parte de um material conhecido do suspense policial: uma família em espera, moradores que sabem mais do que dizem, pistas ligadas a sumiços antigos e uma crença local que circula como explicação pronta. A diferença está no modo como a cidade atrasa o caso. Bilski não encontra só documentos, depoimentos e indícios. Encontra gente que responde pela metade, repete versões gastas ou trata o desaparecimento como assunto antigo demais para ser remexido.

O filme acerta quando deixa esse lugar contaminar a rotina da apuração. A região da Cassúbia não aparece apenas como cenário de cartão escuro, embora o visual procure esse caminho em vários momentos. O que interessa ali é a conduta dos moradores. Eles demoram a falar, escolhem palavras, protegem lembranças, aceitam superstição como se fosse resposta. A lenda ligada ao sumiço de crianças importa menos pelo medo que promete e mais pela utilidade que tem para quem prefere empurrar crimes concretos para a zona do boato.

Portas fechadas

A pequena cidade não serve só para isolar personagens. Ela muda a velocidade do caso. Uma informação chega torta porque alguém a conteve por tempo demais; uma resposta vem acompanhada de justificativa; uma pista antiga reaparece misturada a crenças que ninguém parece disposto a abandonar. Nessas passagens, “As Cores do Mal: Preto” se afasta da investigação automática e observa uma comunidade acostumada a transformar violência em história repetida à mesa, na rua ou no comentário lateral.

Bilski funciona melhor quando não precisa carregar pose de salvador. O personagem tem função oficial, método e insistência, mas não domina o ambiente que acabou de ocupar. Jakub Gierszał trabalha bem essa posição. Seu promotor parece cansado antes de parecer brilhante, e isso combina com um filme em que a verdade não está escondida por um plano genial, e sim por anos de conveniência, medo e acomodação. Ele separa fato de rumor sem tratar o rumor como lixo. Na cidade, boato também protege gente.

A ligação com “As Cores do Mal: Vermelho” situa Bilski dentro de uma série de histórias criminais, sem obrigar “As Cores do Mal: Preto” a viver do caso anterior. Este segundo filme não depende de explicar o outro. Tem uma criança desaparecida, uma mãe presa ao andamento da apuração, um promotor recém-chegado e uma rede de crenças locais que pode encobrir crimes. Quando se concentra nisso, o longa encontra um caminho mais próprio, menos preso à ideia de continuidade.

Pistas e atalhos

O visual fechado, as pausas e a penumbra criam a moldura do mistério, mas não bastam quando as pistas passam a se ligar rápido demais ou quando uma pessoa entra em cena só para reter informação. “As Cores do Mal: Preto” usa rostos fechados, ambientes pouco iluminados, ruas de cidade pequena e sinais ligados a lendas. Esses elementos ajudam a dar unidade ao filme. Também expõem a parte em que o roteiro precisa trabalhar mais. Os moradores não podem existir apenas como suspeitos em espera. A mãe não pode aparecer só para lembrar a gravidade do desaparecimento. A crença local precisa mexer nas decisões das pessoas, não surgir apenas para aumentar a ameaça.

O desaparecimento de uma criança já cria uma pressão difícil de ignorar, e o filme sabe disso. A escolha menos feliz é confiar demais nessa pressão. Diálogos fracos ficam mais evidentes quando a história pede dor, medo e suspeita no mesmo pacote. Algumas ligações entre pistas parecem apressadas. Alguns personagens entram e saem como guardiões de informação, liberando um dado quando a trama precisa avançar. O policial europeu recente já explorou muitas vezes o investigador de fora, a comunidade que se fecha, o passado que retorna e a lenda usada para cobrir violência. Panek usa esses elementos com seriedade, mas nem sempre consegue tirá-los da prateleira comum do gênero.

Há bons momentos no uso das locações e da luz baixa. O filme cria um lugar reconhecível, com moradores que se protegem, evitam exposição e aceitam explicações ruins desde que elas preservem a ordem local. Essa parte rende porque aproxima o crime de hábitos cotidianos. O erro vem quando a seriedade do tema parece substituir relações mais bem desenhadas. A história quer sugerir que o desaparecimento não é só um caso policial, e sim o resultado de uma comunidade treinada para não dizer tudo. Para isso funcionar melhor, seria preciso dar mais vida a quem cerca Bilski.

Marianna Zydek e Zdzisław Wardejn ajudam a formar esse grupo de pessoas ligadas ao caso e à vida local. Andrzej Chyra, citado em outras listagens do elenco, faz parte do mesmo conjunto de figuras em torno da apuração. O filme precisa desses personagens para que o mistério não vire simples distribuição de pistas. Quando eles aparecem com comportamento reconhecível, o suspense melhora; quando servem só para segurar ou entregar informação, a história volta ao caminho mais usado.

“As Cores do Mal: Preto” passa boa parte de seus cerca de 110 minutos cercando o desaparecimento com medo, crença e cautela social. Em vários trechos, isso funciona. A lenda local tem uso dramático quando mostra moradores preferindo versões antigas a admitir crimes possíveis. A mãe do menino impede que o caso vire exercício frio de investigação. Bilski, por sua vez, dá ao filme um centro prático: alguém precisa perguntar, insistir, cruzar dados, incomodar.

A avaliação em três estrelas vem desse meio-termo sem empate fácil. “As Cores do Mal: Preto” é melhor que um produto genérico de catálogo e tem um lugar próprio dentro da série iniciada por “As Cores do Mal: Vermelho”. Também repete caminhos conhecidos, principalmente quando precisa transformar suspeitas em avanço narrativo. Vale pelo modo como aproxima desaparecimento, medo comunitário e crença local, sem limpar demais a figura de Bilski. O filme cerca bem o crime; demora mais para encontrar a passagem certa até ele.


Filme: As Cores do Mal: Preto
Diretor: Adrian Panek
Ano: 2026
Gênero: Drama/Policial/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
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