Há um ponto na alma de todo homem que ninguém consegue alcançar. Lá estão seus medos, suas neuroses mais irracionais, suas opiniões mais impublicáveis, embalados numa bruma claustrofóbica na qual vaidades e outros pecados, miúdos e grandes, nunca vêm à tona. A justiça se arrasta, a reboque das urgências necessidades do cidadão comum, dando chance a indignação, ódio, espertezas, vingança e sangue, matérias-primas fundamentais de “Uma Saída de Mestre”. A direção tarimbada de F. Gary Gray mantém o enredo a salvo dos exageros tão característicos dessas produções, dando sua própria cara ao remake de “Um Golpe à Italiana” (1969), um cult do gênero dirigido por Peter Collinson (1936-1980). Não é pouco.
Um crime (quase) perfeito
Filmes de ação podem extrapolar sua natureza bestial e transmitir mensagens mais elaboradas. Temas ditos graves e urgentes tornam-se menos herméticos, quiçá até despertem imprevisíveis paixões, efeito que fica progressivamente mais claro à medida que Gray faz do roteiro de Troy Kennedy Martin (1932-2009), Donna e Wayne Powers a sequência de eventos frenéticos que esquadrinham o plano de John Bridger, Charlie Croker, Steve, Lyle, Orelha Esquerda e Rob Bonitão. Os seis conseguem roubar 35 milhões de dólares em barras de ouro do cofre de um palácio de Veneza, mas são obrigados a lidar com um contratempo bem próprio de seu ofício, quando Steve mata Bridger para cumprir um acordo com a máfia siciliana. Vesano, o primeiro ato confere as atuações de Donald Sutherland (1935-2024) e Edward Norton o justo destaque, e fica difícil crer num final feliz. Mas ele vem.

