A vida perfeita de um homem pode ser feita de uma sucessão de dias cujas manhãs rompem a aurora com um relógio suíço na cabeceira do leito desarrumado, junto ao porta-retrato com a foto da esposa. Ele se levanta, escolhe um de seus muitos ternos italianos no guarda-roupa perfumado, arruma-se com esmero, admira a vista para o jardim de cerejeiras e mognos enquanto o expresso não sai da cafeteira industrial e, cumpridas essas etapas, afinal, apanha a chave do Porsche, beija a mulher, ainda na cama, e vai conquistar seus milhões. Dan Burton nunca viveu nada sequer parecido, nem quando dirigia dramalhões de mau gosto, uma das bases de “Por Cima do Seu Cadáver”. Jorma Taccone esquadrinha a fragilidade dos relacionamentos e a hipocrisia dos casais dando espaço a proposições ousadamente excêntricas que deságuam em cenas entre a repulsa e o riso. Mas sempre com método.
Caos arrebatador
Vira e mexe, namoros, casamentos, separações e divórcios rondam as mentes frenéticas de cineastas, que se valem de tudo quanto apreendem da sociedade de seu tempo, do que podem observar de gente próxima, daquilo que imaginam ser o corriqueiro e, claro, de sua experiência para definir uma relação afetiva. Quem não ficou rico até o dia em que trocou alianças não conseguirá fazê-lo depois, a não ser que ganhe na loteria — ou se houver um golpe escondido nesse santo matrimônio. Menos violento que “The Trip” (2021), dirigido pelo norueguês Tommy Wirkola, o roteiro de Nick Ball e John Niven mantém a escatologia e as tiradas sobre dificuldades particularmente angustiosas da vida a dois que Dan resolve sanar com o sequestro de Lisa, a atriz sem talento com quem subiu ao altar há alguns anos. Jason Segel e Samara Weaving são hábeis em fazer-nos ansiar pelo caos, e ele vem com toda a força.

