Como todos os sentimentos de que o homem desfruta e contra os quais flagra-se numa batalha encarniçada, tentando se libertar e preso em seus fios, feito a mosca na teia da aranha, o amor tem predicados e defeitos de que se gosta ou se desgosta em maior ou menor proporção, fomentando assim reações as mais imprevisíveis a depender de quem atinja. Nesse sentido, “Feitiço da Lua” é uma verdadeira tese sobre quantas formas pode ganhar a mais humana das emoções, e Norman Jewison (1926-2024) fura a bolha das manjadas circunstâncias que enchem produções congêneres valendo-se de mágica. Inexplicavelmente, dois espíritos aventureiros rendem-se a uma atração sem freio e sem pudor sob a guarda da melhor das cúmplices.
A culpa é da lua
Que o amor vai muito além do apelo carnal todos sabemos, mas o que poucos admitem é que romances só dão certo em existindo uma combinação de empenho e sorte, além de um raro talento para a análise e assumir riscos. John Patrick Shanley encaixa cada peça de seu roteiro no lugar exato, e vai somando elementos como uma ingenuidade cativante e uma boa dose de realismo fantástico para conduzir a narrativa ao desfecho passados 102 minutos. Com toda a desfaçatez, a lua do Brooklyn une Loretta Castorini, uma viúva ítalo-americana para quatrocentos talheres, e Ronny Cammareri, um sujeito entre intempestivo e doce, o que seria muito conveniente, não fosse ela a noiva de Johnny, o irmão mais velho de Ronny. Jewison deixa Cher, Nicolas Cage e Danny Aiello (1932-2019) à vontade para improvisos e eles parecem se divertir muito. Nós só vamos no embalo.

