Adam tem 27 anos quando recebe o diagnóstico de câncer. “50%” poderia transformar essa notícia em prova imediata de coragem, com todos ao redor falando baixo e descobrindo uma versão melhor de si mesmos. Não é o que acontece. A doença altera horários, relações e decisões, enquanto as pessoas continuam atrapalhadas, excessivas ou ausentes. Kyle, o melhor amigo, reage com piadas, fala sem parar e confia quase ofensivamente na própria animação. Rachael não sabe que lugar ocupar na vida do namorado depois do diagnóstico. Diane quer cuidar do filho e acaba perto demais. No consultório, Katherine escuta Adam sem a segurança que ele talvez esperasse encontrar.
Escrito por Will Reiser, “50%” nasce de algo vivido pelo roteirista, e isso ajuda a entender por que hospital, medo e comédia aparecem sem pedido de desculpa. Uma consulta não vira cerimônia de respeito. Um encontro com o amigo não vira conversa exemplar sobre finitude. A rotina médica entra na vida de Adam junto com gente que tenta ficar por perto e atrapalha: piadas no momento errado, conselhos ruins, recuos, insistência onde caberia espera. O dado autobiográfico importa menos como garantia de verdade do que como autorização para deixar a convivência mais bagunçada.
Joseph Gordon-Levitt interpreta Adam como alguém que demora a acompanhar a própria notícia. O diagnóstico chega, o corpo passa a exigir outra rotina, e ele não encontra serenidade imediata, não faz discursos e não vira modelo de reação. Muitas vezes, Adam parece parado diante do que ouviu, incapaz de transformar pânico em pedido. Gordon-Levitt sustenta essa demora sem sublinhar cada mudança. Em vez de grandes explicações sobre medo, há um jovem tentando continuar no mesmo mundo depois que esse mundo deixou de obedecer aos planos que ele fazia sem muita urgência.
A doença não melhora Adam, nem o torna admirável por obrigação. Ele pode ser passivo, irritado, confuso e assustado, sem saber o que pedir e aceitando uma ajuda ruim porque não encontra outra forma de seguir. Em muitos dramas médicos, o paciente logo aparece mais puro, como se o diagnóstico apagasse pequenas mesquinharias e reações desagradáveis. “50%” preserva algo menos confortável: Adam segue falhando, se atrasando diante do que sente, respondendo tarde ao que lhe acontece.
Piadas fora de hora
Seth Rogen, como Kyle, chega perto da caricatura. Sua entrada poderia derrubar a comédia no oportunismo, porque Kyle usa o câncer do amigo para puxar conversas sobre sexo, bebida, paquera e diversão, como se a ameaça pudesse ser vencida por barulho suficiente. Ele quer ajudar, fala alto, exagera na animação e puxa a situação para si. O filme deixa esse comportamento incomodar. Kyle não recebe perdão automático só porque permanece ao lado de Adam.
A amizade dos dois rende porque não vem polida. Kyle se importa com Adam, mas responde à doença com as únicas ferramentas que parecem disponíveis para ele: piada, euforia, convite para sair, tentativa de transformar o medo em uma noite qualquer. Dois homens adultos, diante da possibilidade de morte, continuam falando como rapazes que preferem brincar antes de nomear o que está acontecendo. O riso nasce daí. Não é o câncer que vira graça; são as tentativas desajeitadas de agir diante dele. Quando a piada soa inadequada, ela mostra o despreparo de quem fala.
Anna Kendrick, como Katherine, também trabalha uma falta de segurança. A terapeuta não aparece para organizar a doença de Adam em frases úteis. Ela ouve, tenta conduzir a sessão, hesita, mede a proximidade e às vezes não sabe qual é o próximo passo. O consultório não vira lugar de cura instantânea. Adam fala pouco, ou fala mal, e Katherine não transforma cada resposta em descoberta. As conversas avançam aos tropeços, o que combina melhor com um paciente que ainda não sabe como ocupar esse lugar.
Bryce Dallas Howard e Anjelica Huston completam o pequeno círculo de Adam, embora o roteiro não lhes dê o mesmo tempo. Rachael fica muito presa ao modo como reage ao novo cotidiano do namorado. Diane, por sua vez, poderia aparecer mais, porque seu cuidado mistura amor, medo e invasão de um jeito reconhecível para qualquer família em crise. Há passagens em que essas personagens parecem prestes a sair da função que receberam, mas o filme volta logo para Adam e para o tratamento.
Depois do Diagnóstico
Jonathan Levine não chama atenção para a direção. A fotografia de Terry Stacey, a montagem de Zene Baker e a música de Michael Giacchino servem a cenas centradas em diálogo, elenco e mudanças de rotina. As cenas mais úteis vêm de situações comuns que ficaram estranhas depois do diagnóstico: a amizade que insiste em fazer graça, a terapia que tropeça, a família que se aproxima demais, o namoro que não suporta a nova vida.
Will Reiser evita transformar cada etapa do tratamento em instrução sentimental para o público. Nem sempre escapa de saídas conhecidas. Conforme o cuidado médico avança, algumas relações se rearranjam de modo previsível, com pedidos de acerto, afastamentos e aproximações que a comédia dramática americana costuma entregar. Essa organização pesa quando personagens secundários ficam presos demais ao que fazem por Adam e aparecem pouco fora da doença dele.
A piada, porém, entra muitas vezes onde a cena parecia pedir compostura. Kyle fala o que não deveria. Adam reage tarde. Katherine hesita. Diane exagera. Rachael não se acomoda bem ao que a doença do namorado passa a exigir. O grupo ao redor do protagonista tem carinho, egoísmo, medo, infantilidade e vaidade, tudo misturado na prática diária de tentar estar presente. “50%” não precisa transformar essas reações em exemplos de conduta. Basta deixá-las acontecer.
Adam também não vira representante de todos os pacientes. Seu mundo é pequeno: um jovem nos Estados Unidos, poucas relações próximas, uma rotina regulada por consultas e chances de sobrevivência. A porcentagem do título pertence à vida dele dentro do filme. O número entra onde antes havia planos vagos de juventude, e essa troca já basta para alterar a forma como todos passam a se aproximar, fugir ou falar demais.
As falhas não anulam o acerto principal. Alguns personagens secundários poderiam existir melhor fora daquilo que fazem por Adam, e há soluções conhecidas perto do fim do percurso. Mesmo assim, “50%” tem algo raro em uma comédia dramática sobre câncer: deixa o riso aparecer sem fingir que ele cura alguém e sem fazer de cada cena engraçada uma afronta calculada ao sofrimento.
Adam adoece sem virar santo, enquanto Kyle, Diane, Katherine e Rachael tentam responder ao que aconteceu com as ferramentas que têm, quase todas insuficientes. O filme termina sem converter o câncer em triunfo pessoal repartido entre os personagens. O que permanece é mais simples: gente falando demais, chegando perto demais, demorando a entender, errando enquanto tenta ficar por perto.

