Foi Paul McCartney quem disse. Durante uma recente entrevista, o lendário músico inglês explicou por que não permite que os fãs façam fotos com ele, especialmente, as famigeradas selfies, que viraram um inferno particular da vida contemporânea. Paul justificou a restrição ao afirmar que se sente um macaco de circo, uma atração excêntrica e bizarra. Quase sempre gentil — afinal, apesar de não parecer uma criatura desse planeta, Macca é feito de carne e osso — quando instado a fotografar com os fãs, o eterno beatle vai logo avisando que não autoriza, que prefere conversar um pouco para saber algo mais sobre as pessoas.
Na mesma entrevista, PM declara que o público que comparece aos seus shows deveria usar menos os celulares e prestar maior atenção ao palco, guardando os momentos memoráveis nas suas mentes. Isso não foi Paul McCartney quem disse: é notório que muita gente sem noção extrapola o limite do razoável, ao expor a própria intimidade, filmando desde doação de sangue ou pós-operatório de apendicectomia, até atos de selvageria ou cenas picantes de alcova. Queria saber quem foi o desconjurado que abriu a tal Caixa de Pandora…
Paul revela que não é muito afeito ao universo on-line e que não compreende como pessoas sem nenhum talento aparente conseguem se tornar incrivelmente famosas na esfera digital, a ponto de “influenciar” outros indivíduos. A fala de McCartney reforça a crítica feita por Umberto Eco, há cerca de dez anos, quando o escritor italiano afirmou que as redes sociais da internet deram voz a uma legião de imbecis que antes falavam o que pensavam, apenas numa mesa de bar, depois de tomar uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade.
Não sou Paul McCartney. Tenho os meus rompantes de imbecilidade. Porém, tento não repetir as asneiras. Há alguns anos, ganhei uns ingressos e fui parar no carnaval do Rio de Janeiro, dentro do camarote duma famosa cervejaria. Naquela época, eu era sócio dum tradicional restaurante da minha cidade. Pateticamente deslumbrado com a presença de tantas celebridades naquele ambiente festivo, eu me sentia como um pinto no lixo e comecei a assediar os famosos para fazer fotos comigo.
O processo de tietagem prosseguia de forma mais ou menos exitosa, afinal de contas, as celebridades ali presentes eram pagas para interagir com o público. De certa forma, tolerar gente chata e inconveniente fazia parte do pacote. Lembro-me dum episódio marcante, constrangedor, didático, quando um de meus amigos cutucou três vezes o ombro da carismática atriz Ingrid Guimarães, que conversava com outra pessoa. “Espera um pouco, meu filho. Não tá vendo que eu tô conversando?”.
Macacos me mordam! A comediante Ingrid Guimarães, mal-humorada? Sim. A hilária Ingrid Guimarães, mal-humorada, a reagir como qualquer ser humano normal. A ficha caiu. Meti o rabo entre as pernas, enfiei a viola no saco e não perturbei mais ninguém com aquela bobagem. Fiquei tomando cerveja ruim até dar a hora do transfer para o hotel. Sim, seus chatos, eu vi a Mangueira entrar. Mais do que prova de admiração, fazer uma foto com uma pessoa famosa é puro ato de vaidade, algo do tipo: “Vejam só, otários, eu tenho uma foto com fulano-de-tal e vocês, não”. Pecado menor, fraqueza humana, eu sei. Acontece com todo mundo. O que não nos faltam são momentos de boçalidade. Mesmo sendo um nada, a gente se acha né, Fernando Pessoa?
O homem não para. No auge dos 83 anos, Paul McCartney segue produzindo e acaba de lançar “The boys of Dungeon Lane”, que está sendo considerado pela crítica especializada um dos melhores álbuns de música dos últimos tempos. Macaco velho que sou, acompanho a carreira de Paul McCartney, desde a minha adolescência. Amo demais esse sujeito e tenho a pretensão de envelhecer como ele: atuante, produtivo, simpático e inovador. Só não posso garantir que abrirei mão do churrasco e do ovo frito com gema mole. Aí já é demais para um goiano do pé rachado. Faz bastante tempo que o velho Macca se tornou vegano, ativista das causas ambientais e de proteção aos animais, um dos maiores influenciadores da vida contemporânea, a despeito da concorrência desleal com a leva de imbecis sem o menor talento.
Não quero mandar em ninguém. Como dizia Antônio Abujamra, a vida é sua, estrague-a como quiser. No entanto, fica aqui uma singela e sincera sugestão. Da próxima vez que se deparar com um ídolo, no tête-à-tête, troque a foto pelas palavras de reconhecimento ou, melhor do que isso, um abraço, desde que consentido. Não vá agir como um macaco de auditório, tá?

