“A Sogra” começa com uma situação simples: Charlotte Cantilini encontra Kevin Fields, acredita ter achado o par ideal e logo descobre que a mãe dele fará do casamento uma guerra particular. Robert Luketic dirige a comédia romântica dentro de um padrão fácil de reconhecer nos anos 2000, com casas arrumadas, festas, provas de vestido, encontros familiares e piadas apoiadas na sogra invasiva. A proximidade da cerimônia aumenta a pressa das sabotagens. Charlotte tenta seguir adiante, Kevin demora a enxergar o tamanho do problema e Viola Fields entra para impedir que a futura nora ocupe o lugar que ela ainda considera seu.
A rapidez inicial cobra preço quando as piadas passam a repetir a mesma relação de ataque e defesa. Viola foi demitida do cargo de âncora em uma rede nacional, e esse dado explica melhor a personagem do que qualquer tirada sobre ciúme materno. Jane Fonda interpreta uma mulher que perdeu status diante de muita gente e tenta compensar essa queda na casa do filho. A humilhação pública reaparece em forma de vigilância doméstica. Charlotte, vivida por Jennifer Lopez, não chega para Viola como uma pessoa nova na família, mas como alguém que ameaça a última área onde a ex-âncora ainda espera obediência.
Viola toma a sala
Jane Fonda faz Viola agir como alguém acostumada a ser vista e obedecida. Ela calcula a voz, ajeita a pose, finge cordialidade quando convém e ataca por insinuação quando encontra abertura. Suas armas já não são a bancada do telejornal nem a autoridade profissional, e sim visitas, comentários, armadilhas sociais e pequenas humilhações dirigidas a Charlotte. O contraste entre a solenidade que Viola tenta preservar e a miudeza de seus métodos rende os melhores momentos da comédia. Ela trata a vida amorosa do filho como uma emergência pública.
Charlotte fica em posição menos favorável. Jennifer Lopez dá leveza à personagem e passa pelas situações de comédia física sem perder simpatia, só que a protagonista gasta tempo demais respondendo ao que Viola prepara. Cabe a ela defender o romance, preservar a própria dignidade e chegar ao casamento sem aceitar todas as provocações. Isso aproxima Charlotte do público, porém a mantém presa à reação. Quando ela endurece e deixa de apenas se proteger, a disputa muda de temperatura. Esses momentos aparecem, só que não dominam o filme.
Kevin, interpretado por Michael Vartan, entra como par romântico e razão da briga, sem muito espaço para alterar a rota das duas mulheres. Sua demora em perceber a extensão da sabotagem ajuda a manter Viola em ação, embora enfraqueça o romance. Charlotte e Kevin deveriam justificar a confusão inteira; muitas vezes, parecem a moldura para a ex-âncora avançar sobre a noiva. A atenção se desloca porque Viola tem mais gestos, mais cálculo e mais liberdade para agir mal.
Wanda Sykes também deixa ver um filme que poderia existir por mais tempo. Como Ruby, ela reage à pompa de Viola com respostas secas e uma percepção prática do ridículo alheio. Quando aparece, a comédia se afasta por alguns segundos da sequência em que Viola arma, Charlotte se defende e Kevin demora a entender. Sykes corrige o exagero dos outros com fala curta, sem precisar aumentar o volume da cena. “A Sogra” teria se beneficiado de mais passagens nas quais a crueldade da situação viesse pela fala, não pela próxima cilada.
A cerimônia se aproxima
Luketic mantém a história dentro da promessa de comédia leve. Os espaços familiares e os preparativos de casamento deixam tudo sempre perto da cerimônia, e a direção evita que a agressividade da premissa estrague a fantasia romântica. Mesmo quando Viola age como adversária doméstica, o filme conserva a ideia de que tudo poderá voltar a uma ordem aceitável. A escolha combina com a proposta comercial, só que reduz a acidez que Jane Fonda sugere em várias passagens.
A repetição pesa. Viola sabota, Charlotte resiste, Kevin não vê ou não entende, e o casamento se aproxima. Em 101 minutos, “A Sogra” não chega a se arrastar, mas deixa escapar chances de alterar a maneira como essa guerra avança. A ex-âncora humilhada poderia render uma comédia mais cruel sobre fama, envelhecimento profissional e autoridade materna. O roteiro apresenta esses dados e logo retorna às armadilhas contra a noiva. A piada sobre uma mãe incapaz de ceder espaço começa bem; a insistência tira parte do efeito.
O melhor prazer de “A Sogra” está em observar Viola transformar qualquer gesto de Charlotte em afronta. Um namoro vira ameaça. Um casamento vira invasão. Uma futura nora vira concorrente direta. Jane Fonda tira graça desse exagero porque Viola nunca parece apenas irritada. Ela se comporta como se tivesse sido destituída de um cargo vitalício. Quando essa vaidade ferida aparece por trás das manobras, o filme encontra algo melhor que a piada automática sobre sogras.
Jennifer Lopez, ao contrário, recebe menos chance de surpreender. Charlotte tem carisma, ocupa o caminho principal da história e carrega a espera pelo casamento, mas suas melhores respostas aparecem quando ela deixa de agir apenas como alvo. A comédia melhora nesses instantes porque a perseguição deixa de correr em uma única direção. Mesmo assim, Viola e Ruby recebem as falas e reações mais engraçadas, enquanto Charlotte precisa manter o romance em pé e impedir que a história vire pura disputa de sogra contra nora.
“A Sogra” pertence a uma família de comédias românticas que trabalham com tipos conhecidos: a noiva ameaçada, a mãe insuportável, o homem dividido, a personagem secundária que comenta o absurdo. O reconhecimento rápido faz parte do prazer oferecido. A familiaridade vira acomodação quando as sabotagens seguem caminho previsível demais. Luketic entrega um filme fácil de ver, com boas atrizes tentando animar situações que chegam explicadas. Jane Fonda ocupa quase todo o espaço disponível. Wanda Sykes aproveita o que recebe. Jennifer Lopez faz Charlotte atravessar a confusão com simpatia, embora o roteiro a mantenha muitas vezes na defesa.
“A Sogra” não fracassa como comédia de sessão descompromissada, nem aproveita por completo a sua melhor ideia. Viola poderia ter conduzido o filme a um humor mais cruel sobre mães que confundem amor com posse e sobre celebridades que não aceitam perder a plateia. O resultado fica no meio: às vezes engraçado, às vezes repetitivo, salvo em parte por atrizes que encontram graça em cenas escritas para chegar depressa ao próximo ataque. Jane Fonda trata o casamento como se fosse uma transmissão fora de controle. Charlotte continua esperando que a cerimônia sobreviva.

