“Pequenas Cartas Obscenas”, de Thea Sharrock, retoma o caso real das cartas obscenas em Littlehampton, na Inglaterra dos anos 1920. Mensagens anônimas, cheias de insultos, começam a circular pela cidade e provocam um alvoroço que seria cômico mesmo sem roteiro de cinema. A primeira acusada é Rose Gooding, irlandesa, expansiva, pouco ajustada à mulher discreta, obediente e bem-vista pelos vizinhos. Edith Swan, sua vizinha, ocupa o lado socialmente protegido da história: conservadora, religiosa, apegada às boas maneiras e cercada por gente disposta a confundir decoro com caráter.
As cartas têm palavrões, ofensas e uma grosseria que deixa os moradores em estado de escândalo. A graça vem menos da sujeira do vocabulário do que das reações de quem afirma estar horrorizado, mas não resiste a comentar cada palavra. As pessoas condenam em público e repetem em privado. Querem saber o conteúdo, querem ouvir de novo, querem medir a baixeza da frase alheia. A cidade censura as cartas e se diverte com elas, enquanto Rose vai sendo empurrada para o papel de culpada antes que a investigação tenha muito a apresentar.
Littlehampton não precisa de provas firmes para desconfiar de Rose. Sua origem, seu jeito de falar, sua fama e sua relação pouco dócil com a vizinhança já bastam para que muita gente aceite a acusação. Rose não administra a própria imagem como se estivesse sempre diante de um tribunal doméstico. Edith, ao contrário, domina o vocabulário da respeitabilidade. Olivia Colman faz a personagem parecer presa a uma noção estreita de virtude, mas sem depender apenas de caretas ou tiques cômicos. A comicidade vem do modo como Edith se abriga atrás de palavras corretas, gestos controlados e uma fé socialmente aprovada.
A culpada conveniente
Jessie Buckley dá a Rose uma mistura de insolência e exposição pública que impede a personagem de virar apenas uma vizinha divertida. Ela responde, provoca, fala alto, enfrenta quem a julga, mas cada uma dessas atitudes pode ser usada contra ela. A mulher que não se comporta como esperam já entra na sala perdendo. Buckley deixa isso aparecer sem transformar Rose em mártir. A personagem ri, erra, desafia e se irrita, e o filme tira daí boa parte de sua comédia.
Anjana Vasan, como Gladys Moss, desloca a investigação para fora da resposta fácil aceita pelos homens. Gladys percebe que a acusação contra Rose foi acolhida depressa demais e começa a puxar outro fio, junto de outras mulheres da cidade. Sharrock prefere cenas curtas, leituras em voz alta e reações de escândalo, sem pesar a mão em discurso. A ambientação de época ajuda quando mostra casas próximas, visitas formais e hábitos sociais que fazem a vida privada parecer sempre observada por alguém.
O roteiro de Jonny Sweet aproveita bem o absurdo do episódio. Littlehampton trata um caso de cartas imundas como grande assunto público, e a indignação de seus moradores tem algo de prazeroso. As mensagens ofendem, mas também dão assunto aos vizinhos e fornecem motivo para castigar Rose. A fofoca não aparece como detalhe lateral. Ela participa da acusação. Cada leitura, cada comentário, cada rosto ofendido ajuda a definir quem será ouvido com confiança e quem será recebido como mentira em pessoa.
A cidade fica limpa demais
A adaptação, no entanto, deixa o caso mais arrumado do que ele poderia ser. “Pequenas Cartas Obscenas” rende mais quando observa suas personagens do que quando tenta alimentar o mistério. A autoria das cartas não carrega grande surpresa, e o caminho até a verdade avança por etapas previsíveis. O elenco compensa boa parte disso, porque Colman, Buckley e Vasan dão variação às cenas de escândalo, suspeita e leitura de insultos. Sem elas, a repetição apareceria bem mais.
Havia matéria para uma comédia mais amarga. Sharrock escolhe um filme acessível, de progresso fácil, com injustiças reconhecíveis e tipos sociais de compreensão rápida. A sessão passa bem. O preço está na limpeza excessiva do caso. O perigo para Rose é grave, inclusive pela ameaça de perder a guarda da filha, mas a história não permanece muito tempo nessa ameaça. Logo volta ao riso, à próxima reação chocada, à próxima descoberta, ao próximo movimento rumo à correção da injustiça.
Essa escolha não estraga “Pequenas Cartas Obscenas”. O riso ajuda a expor uma comunidade obcecada por respeito, fofoca e punição. O que diminui o filme é a pressa em organizar tudo num caminho confortável. A cidade julga, a polícia erra, as mulheres desconfiam, a verdade se aproxima. A obscenidade das cartas continua alta, mas a punição social que cerca Rose poderia deixar marcas mais ásperas na comédia.
A palavra escrita é usada com alguma esperteza. As cartas passam de mão em mão, são lidas com horror e curiosidade, viram assunto público, mancham a fama de Rose e reforçam a imagem respeitável de Edith. Um palavrão no papel tem consequência diferente para quem já é malvista e para quem sabe se esconder atrás de modos corretos. As melhores cenas deixam essa diferença aparecer sem transformar tudo em explicação.
“Pequenas Cartas Obscenas” diverte, tem atrizes em bom domínio de seus papéis e sabe rir do moralismo de uma cidade fissurada por palavras proibidas. Fica devendo uma mordida maior. Seu mistério é mais fraco que suas personagens, e o caso real termina menos venenoso do que prometia quando as primeiras cartas chegam às mãos dos moradores.

