Discover

A fantasia de um parceiro feito sob medida parece, de saída, uma provocação fácil. Um pouco de charme, uma dose de estranheza tecnológica, alguns impasses morais e “O Homem Ideal” poderia se acomodar sem muito esforço na prateleira da comédia romântica futurista. Maria Schrader, porém, escolhe um caminho menos vistoso e mais desconfortável. Seu filme não se limita a perguntar se uma máquina pode amar. A questão que realmente pesa é outra: o que acontece com o amor quando a frustração, o improviso e o risco são retirados da relação?

Alma, interpretada por Maren Eggert, é uma cientista em Berlim que aceita participar de um experimento de convivência com Tom, humanoide vivido por Dan Stevens. Ele foi programado para ser compatível com ela, antecipar desejos, responder a carências e oferecer uma versão quase impecável de companhia. A situação poderia render uma sátira mais aberta ou um romance de laboratório com pitadas de ficção científica. “O Homem Ideal” prefere permanecer no incômodo. Tom não aparece como ameaça. Aparece como solução. E é justamente essa solução que torna tudo mais perturbador.

Amor sob medida

A melhor ideia de “O Homem Ideal” está em tratar a perfeição como uma forma de pressão. Tom é gentil, atento, bonito, paciente, educado, espirituoso na medida certa. Não se comporta como vilão, tampouco como caricatura de robô. A inquietação vem do contrário: ele parece funcionar bem demais. Alma não está apenas rejeitando uma máquina. Ela reage à promessa de uma relação sem atrito, desenhada para livrar o sujeito da parte mais imprevisível de qualquer vínculo real.

Essa escolha tira o filme do terreno mais óbvio. A ficção científica não surge como vitrine tecnológica, mas como hipótese moral. Não há grandes aparatos, cenários futuristas ou explicações técnicas tentando impressionar. Schrader trabalha em escala íntima, quase cotidiana, acompanhando a tensão entre uma mulher que desconfia da felicidade encomendada e uma máquina criada para vencer essa desconfiança. O resultado é um filme discreto, às vezes seco, mas com uma inteligência que se revela justamente nos limites que impõe a si mesmo.

Maren Eggert sustenta boa parte dessa ambiguidade. Sua Alma poderia cair facilmente no tipo da mulher racional demais, fechada demais, amarga demais. Não cai. A atriz faz da contenção uma forma de defesa, não um simples traço de personalidade. Há em Alma uma lucidez dolorida: ela entende que o desejo humano não se resolve por compatibilidade técnica. Ser compreendida o tempo todo pode ser tão sufocante quanto nunca ser compreendida. Essa percepção dá espessura à personagem e impede que sua resistência seja tratada como capricho.

Dan Stevens também encontra um ponto delicado em Tom. Ele precisa parecer artificial sem virar boneco, sedutor sem soar barato, engraçado sem quebrar a gravidade da situação. O personagem funciona porque sua simpatia carrega uma contradição. Quanto mais ele acerta, mais expõe o absurdo da experiência. Tom aprende, adapta-se, responde com elegância, mas sua disponibilidade constante deixa uma pergunta pairando sobre cada gesto: uma relação ainda é relação quando uma das partes existe para confirmar a outra?

“O Homem Ideal” evita transformar a tecnologia em inimiga simples, e isso faz diferença. O filme não se apoia no medo fácil da máquina substituindo o ser humano, nem no encantamento ingênuo diante da inovação. A discussão sobre robôs e direitos aparece, mas não engole o drama. O centro está na fragilidade humana diante de uma promessa difícil de recusar: sofrer menos. Tom é menos um robô do futuro do que a materialização de uma fantasia antiga, a de ser amado sem negociação, sem espera, sem desencontro, sem perda.

A falha humana

É aí que a direção de Maria Schrader encontra sua precisão. A cineasta evita sublinhar emoções e prefere observar conversas, pausas, recusas e pequenos deslocamentos de humor. Essa contenção mantém o filme em estado de dúvida. Nada é empurrado com força demais, o que combina com uma história sobre sentimentos testados em ambiente controlado. Ao mesmo tempo, essa escolha cobra um preço. Em alguns momentos, “O Homem Ideal” parece tão calculado quanto o próprio Tom.

Essa frieza parcial é a limitação mais visível da obra. O roteiro tem inteligência, mas nem sempre encontra uma temperatura emocional à altura das questões que levanta. A conversa sobre amor, autonomia e programação, por vezes, pesa mais do que a vibração íntima entre os personagens. O filme sabe exatamente o que quer discutir, mas nem sempre permite que suas contradições escapem do controle. Para quem espera uma comédia romântica mais calorosa, a experiência pode parecer seca. Para quem procura uma ficção científica mais ousada, pode soar modesta.

Ainda assim, essa modéstia não anula o filme. Em boa parte, ela o define. “O Homem Ideal” não tenta provar grandeza a cada cena. Seu interesse está em desmontar, com calma, a ideia do par perfeito. A crença de que alguém possa nos completar sem conflito costuma ser vendida como ideal romântico. O filme a encara como armadilha. Não porque o amor precise ser dor, mas porque qualquer afeto real exige a presença do outro como alguém que não existe apenas para nos acomodar.

Por isso, a relação entre Alma e Tom funciona melhor quando não é lida como romance impossível, e sim como teste do próprio desejo. Tom foi criado para fazer Alma feliz, mas a felicidade, no filme, não cabe em desempenho. Ela depende de escolha, acaso, memória, corpo, medo, contradição. Depende também da chance de que o outro falhe, decepcione, resista. Sem isso, o amor vira um produto de alta precisão: confortável, eficiente e estranhamente vazio.

“O Homem Ideal” é mais inteligente do que emocionante, e essa diferença não precisa ser tratada como defeito absoluto. Sua força está na recusa de respostas fáceis. Maria Schrader parte de uma premissa que poderia render leveza previsível e chega a uma crítica amarga da terceirização do afeto. O filme não demoniza Tom, não ridiculariza Alma e não transforma a tecnologia em culpada universal. Prefere uma conclusão menos vistosa e mais incômoda: talvez o problema não esteja na máquina capaz de aprender a nos amar, mas na nossa pressa em eliminar tudo o que torna o amor humano imperfeito, instável e vivo.


Filme: O Homem Ideal
Diretor: Maria Schrader
Ano: 2021
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 4/5 1 1
Leia Também