O mote das trapalhadas por trás do mais humano dos sentimentos e as inadequações que suscita em nós quando nos damos conta de que o amor, como tudo na vida, também é suscetível a falhas faz parte das comédias românticas e constitui muito de seu encanto. Lastimavelmente, porém, nos 115 minutos de “Paixão de Escritório”, o tom artificioso de cenas sempre inverossímeis demais é uma prova de fogo para críticos e mesmo para os fãs-raiz de Jennifer Lopez, que parece meio sem rumo. Seduzindo homens e mulheres de oito a oitenta desde “Jovens em Conflito” (1987), sua estreia na tela grande pelas mãos de Connie Kaiserman (1945-2020), Lopez é o furacão habitual de carisma e beleza de encher os olhos, mas a serviço de uma trama sem função outra que não a de cumprir tabela.
Mudança para pior
Jackie Cruz é o arquétipo da mulher de nossa estranha pós-modernidade de acordo com o roteiro de Brett Goldstein e Joe Kelly levado por Ol Parker, que elabora com alguma competência o arco dramático de Jackie, a presidente da Air Cruz, a companhia aérea fundada pelo pai, um imigrante hispânico que fez a América depois de comer o pão que o diabo amassou e quase falir. Quem salvou sua pele foi, claro, a personagem de Lopez, que dedicou seus melhores anos à empresa e agora, ironicamente, enfrenta uma insurreição do conselho administrativo por ter ido para a cama com o advogado da Air Cruz. Interpretado pelo próprio Goldstein, Daniel Blanchflower entra na história como uma versão engravatada da chefe e ninguém fica surpreso com o que se assiste depois, esperando por isso. Todavia não se pode querer grande coisa de um relacionamento que começa com um aperto de mão que degringola num reflexo fisiológico tão natural quanto bizarro. Tudo tem limite.

