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A morte é sempre uma visita indesejada, mas quando se trata de uma morte violenta em circunstâncias misteriosas, essa intrusa precisa ser confrontada com o rigor necessário. Dependendo da forma como se levou a vida, morrer não é ruim. A morte vem a ser nada mais que um espelho de nossas ações ao longo dos anos, respondendo de maneira suave ou insuportavelmente austera ao modo como decidimos passar os dias sob o sol — e também não há garantia alguma quanto a ter uma boa morte só porque se tentou viver com honradez. O encontro de Rosa Montero com a finitude dá-se com uma porção de fantasia gótica e cinismo bárbaro em “A Desconhecida”, e pelas mãos de Gabe Ibáñez sua incursão no romance policial, junto com Olivier Truc, vira um thriller que não deixa nada a desejar aos arrasa-quarteirões americanos congêneres. O roteiro de Lara Sendim perscruta a sensibilidade de Montero e a agudeza do raciocínio de Truc em cenas ágeis nas quais Ibáñez mantém o pessimismo de “Hierro” (2009), sua promissora estreia em longas, mas concentra-se em relações flagrantemente dúbias e pouquíssimas esperanças de um final feliz.

As aparências enganam

Anna Ripoll é uma heroína cansada num lugar impiedoso, cheio de becos e atrocidades. Barcelona é bem mais que uma aspiração turística para Ibáñez, e o diretor mostra a estranha atração que a cidade desperta em bandidos do mundo todo indo ao porto da capital da Catalunha, e Ripoll o acompanha. Uma mulher foi encontrada dentro de um contêiner, e a detetive assume o caso, ressabiada como nunca, mas decidida a alcançar a cornucópia de detalhes nebulosos que ocultam o que parece-lhe um sofisticado esquema de tráfico humano. O diretor é hábil ao sugerir conclusões ao espectador, ao passo que invalida suas apostas à medida que Ripoll conhece Lucía, a tal suposta vítima, e percebe que ela não sabe quem é. O delicado equilíbrio entre a trama de investigação e os confrontos deontológicos da policial ancora-se basicamente no modo como Candela Peña enxerga as muitas contradições e fraquezas da personagem, e Ana Rujas vai nessa direção para achar Lucía. Ironicamente, as duas estão sem um rumo, sutileza que faz de “A Desconhecida” uma história sem compromisso com explicações. Mas isso não quer dizer que prescinda da lógica.


Filme: A Desconhecida
Diretor: Gabe Ibáñez
Ano: 2026
Gênero: Crime/Drama/Mistério/Suspense
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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