“A Teoria do Amor” nasce de uma ideia que não tenta disfarçar o absurdo: Albert Einstein, aqui transformado em cupido informal, decide interferir na vida amorosa da sobrinha fictícia Catherine Boyd. O alvo da conspiração é Edward Walters, um mecânico sem prestígio acadêmico, mas com uma energia muito mais viva do que a do noivo correto, culto e emocionalmente engessado que a espera no altar. O filme de Fred Schepisi se apoia nesse contraste desde o início. De um lado, a inteligência reconhecida, com seus títulos, códigos e ambientes sofisticados. Do outro, a intuição afetiva, menos elegante, menos validada, mas apresentada como mais verdadeira. É um ponto de partida simples, quase simplório. Também é, quando funciona, a fonte de seu encanto.
O filme não escapa de seu próprio ar datado. A comédia romântica trabalha com uma oposição muito nítida entre o mundo intelectualizado de Catherine e a espontaneidade de Edward, como se bastasse ao romance atravessar essa fronteira para revelar uma verdade escondida. Há algo conveniente nessa construção. Edward não precisa pertencer àquele universo; basta que sua diferença seja lida como frescor. Catherine, cercada por homens brilhantes e protocolos sociais, precisa reaprender a ouvir um tipo de desejo que não vem embalado por currículo. O roteiro não aprofunda muito essa tensão, mas a usa com eficiência. “A Teoria do Amor” é mais hábil no gesto leve do que na investigação complexa.
A presença de Einstein ajuda e complica a brincadeira. O personagem não deve ser lido como retrato histórico, e o filme jamais parece interessado nisso. Ele funciona como uma figura de imaginação popular: o gênio despenteado, irônico, afetuoso, capaz de olhar para o amor como quem observa um problema curioso. A escolha poderia virar caricatura barata, mas Walter Matthau impede que isso aconteça por completo. Seu Einstein tem humor seco, ternura sem esforço e uma espécie de cansaço divertido diante das formalidades que cercam Catherine. Ele não interpreta um monumento. Interpreta um homem velho, esperto e intrometido, que talvez confie demais na própria capacidade de reorganizar a vida alheia.
Razão e truque
É justamente aí que “A Teoria do Amor” fica mais interessante e mais problemático. A aproximação entre Edward e Catherine depende de uma farsa armada por Einstein e seus amigos cientistas. O filme trata a mentira como travessura, quase como uma pequena engenharia sentimental a serviço de um bem maior. Dentro do registro da comédia romântica, isso não chega a surpreender. Enganos, disfarces e mal-entendidos sempre fizeram parte do gênero. Ainda assim, há um incômodo específico nessa armação: Catherine é conduzida a rever suas escolhas a partir de uma encenação cuidadosamente construída por homens que dizem saber o que é melhor para ela.
O tom gentil suaviza a questão, mas não a elimina. O roteiro parece acreditar que a verdade emocional do romance compensa os atalhos éticos usados para chegar até ela. Em vários momentos, a leveza funciona. A situação tem graça, os atores sustentam o jogo e o filme sabe que está lidando com uma fantasia. Mas a mesma suavidade que torna tudo mais palatável também reduz a força crítica da premissa. Havia espaço para uma comédia mais afiada sobre vaidade intelectual, desejo, impostura e manipulação. Schepisi prefere um caminho mais doce. O resultado é simpático, mas menos esperto do que poderia ser.
Ainda assim, a contradição tem seu sabor. Homens da ciência, acostumados ao método e à lógica, recorrem ao teatro social para provar uma hipótese amorosa. A graça não está apenas em ver Edward tentando circular por um mundo que não é seu, mas em perceber como a razão, no filme, vive fazendo gambiarra para justificar o coração. “A Teoria do Amor” não transforma essa ironia em grande comentário, e talvez nem queira. Seu alcance é menor, mais doméstico. O filme se contenta em observar personagens inteligentes se comportando de maneira bastante tola quando o assunto é desejo.
O elenco é decisivo para que essa engrenagem não pareça apenas mecânica. Tim Robbins faz de Edward uma presença franca, levemente desajeitada, sem a afetação de quem tenta provar uma genialidade escondida. Ele funciona melhor quando permanece um estranho naquele ambiente, não quando o roteiro tenta aproximá-lo artificialmente da aura intelectual que o cerca. Meg Ryan, como Catherine, trabalha dentro de um registro conhecido da comédia romântica dos anos 1990, mas dá à personagem uma hesitação importante. Catherine não é só alguém dividida entre dois pretendentes; é uma mulher pressionada por uma ideia de vida correta, segura e pouco vibrante. Stephen Fry, como James, ocupa o lugar do noivo adequado demais. O papel é desenhado em linhas rígidas, mas essa rigidez serve ao contraste: ele representa uma inteligência incapaz de aquecer uma relação.
Doçura datada
A direção de Fred Schepisi aposta em uma Princeton idealizada, mais próxima de uma lembrança cinematográfica do que de um espaço histórico concreto. O cenário universitário, os trajes, os corredores e a atmosfera de época criam um mundo arrumado para a fantasia. Essa escolha combina com o filme. “A Teoria do Amor” não quer sujar sua comédia com muita aspereza nem desmontar a mitologia do gênio com verdadeira irreverência. Prefere aparar as pontas e manter o romance em circulação. É uma decisão coerente, embora limite o impacto da obra.
O ritmo também sente esse apego à gentileza. Algumas passagens têm graça justamente porque o filme se permite ser leve, sem pedir desculpas pela improbabilidade. Outras parecem acomodadas demais nas convenções do gênero. A previsibilidade não destrói o prazer, mas impede que a premissa renda tudo o que promete. O longa parece sempre à beira de uma comédia mais ousada e, quase sempre, recua para um terreno seguro. Isso não o torna ruim. Torna-o menor.
Mesmo com essas limitações, há algo honesto em sua doçura. “A Teoria do Amor” não finge ser uma grande meditação sobre ciência, destino ou paixão. Também não vende seu absurdo como revelação. Seu prazer está em outro lugar: na disposição de tratar uma ideia improvável com seriedade suficiente para que o jogo funcione, mas não tanta a ponto de sufocar a brincadeira. Matthau é o maior trunfo dessa dosagem. Sempre que o filme ameaça ficar açucarado, ele devolve uma secura bem-vinda. Sempre que a farsa fica mecânica, sua presença traz calor.
Visto hoje, o filme carrega marcas claras de uma comédia romântica menos preocupada em problematizar seus próprios mecanismos. A mentira é romantizada, a oposição entre razão e coração é simplificada, e alguns personagens existem mais como funções narrativas do que como figuras plenamente desenvolvidas. Mas há filmes que sobrevivem não por sua sofisticação, e sim por uma combinação rara de premissa, elenco e tom. “A Teoria do Amor” está nesse grupo. É irregular, previsível e moralmente discutível em sua armação, mas também tem charme, timing e uma leveza que não parece fabricada.
Sua melhor qualidade talvez esteja na moderação. O filme não exige admiração excessiva, não tenta parecer mais brilhante do que é e não transforma sua fantasia em tese grandiosa. Ele apenas imagina que, por pouco mais de uma hora e meia, até Einstein poderia perder tempo tentando organizar o coração dos outros. Como ideia, é bobagem. Como comédia romântica, rende menos do que poderia. Mas, nas mãos de Walter Matthau e de um elenco disposto a levar o absurdo com naturalidade, essa bobagem encontra um tipo discreto de graça.

