Incertezas, dúvidas, questionamentos, dilemas, as encruzilhadas morais de todas as noites insones, eis os fantasmas mais aterrorizantes. Obsessa desde o princípio dos tempos pelos impasses que jamais a irão abandonar, por mais que resista, a humanidade balança e goza seus efêmeros prazeres, angustiada, ignorando os males que seduzem-na como a fera à presa. O jeito como Sarah, a protagonista de “Não Feche os Olhos”, reage ao se deparar com problemas que não são seus é, não se pode negar, bastante incômodo, mas à medida que o filme de Anthony Scott Burns se desenrola, fica muito claro que ela apenas responde a um estímulo mais forte, alimentando inconscientemente ou não uma excrescência que vai derrubá-la logo. O pulo do gato de Burns e do corroteirista Daniel Weissenberger é levar o público a concluir que também pode passar por circunstâncias semelhantes e ver-se encarcerado em sua própria vida, desconhecendo-se.
Pane no sistema
A cabeça de Sarah Dunne é um labirinto escuro e gélido. Há algum tempo tudo o que ela quer é uma noite de descanso natural, mas tornou-se escrava de remédios e terapias ineficientes, arrastando-se de um lado para o outro como um zumbi. Cientistas de uma universidade local conduzem uma pesquisa sobre distúrbios do sono e Sarah tem, afinal, razões para animar-se e crer que não será mais alvo da chacota dos colegas de sala, ainda que esse dado de seu cotidiano não seja mais um problema que desperte sua atenção. Burns vale-se desse gancho para discorrer acerca das armadilhas que passam dos meandros do cérebro para o dia a dia, apostando em membros sem corpos e, evidentemente, no trabalho de Julia Sarah Stone, uma anti-heroína tão atormentada que dá medo.

