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“O Hobbit: A Desolação de Smaug” é o ponto em que a trilogia de Peter Jackson enfim parece encontrar um pulso mais firme. Depois de “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada”, filme muitas vezes ocupado em reapresentar a Terra-média, reunir personagens e justificar o retorno a um imaginário já consagrado, o segundo capítulo chega com uma vantagem simples: ele pode seguir em frente. E segue. A jornada de Bilbo, Thorin, Gandalf e dos anões deixa de ser apenas preparação para uma grande aventura e passa a ter risco, urgência e consequência. Ainda assim, o avanço não elimina a questão que acompanha todo o projeto: há filme demais para uma história que talvez pedisse menos peso.

O melhor de “O Hobbit: A Desolação de Smaug” está nessa disposição para se mover. A travessia pela Floresta das Trevas, a passagem pelo reino dos elfos, a chegada à Cidade do Lago e o caminho até Erebor dão ao longa uma estrutura mais dinâmica que a do episódio anterior. Cada espaço altera a relação entre os personagens, apresenta uma ameaça diferente e reforça que a missão de Thorin não é só uma busca heroica. Há orgulho ferido, memória de exílio, desejo de reparação e uma ideia perigosa de pertencimento associada ao ouro. O filme cresce quando percebe que a aventura, aqui, também é uma disputa moral.

Aventura em movimento

Peter Jackson sabe filmar perseguições, fugas e confrontos em grande escala, e “O Hobbit: A Desolação de Smaug” mostra isso com mais energia do que “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada”. A sequência dos barris, por exemplo, tem algo de parque de diversões medieval: é exagerada, elástica, quase cartunesca em alguns movimentos, mas funciona porque assume a ação como coreografia. O filme, nesse trecho, abraça seu lado mais físico e brincalhão. O problema é que essa mesma habilidade também denuncia um vício. Jackson raramente deixa uma boa ideia visual terminar no ponto certo. Muitas vezes, estica a cena até que a invenção comece a virar saturação.

Mesmo com esse excesso, o filme ganha quando permite que Bilbo ocupe o centro da aventura. Martin Freeman continua sendo uma das escolhas mais felizes da trilogia, em parte porque não tenta competir com a escala gigantesca ao redor. Seu Bilbo é feito de hesitações, pequenos cálculos, medo disfarçado de bom senso e uma coragem que quase sempre nasce tarde, quando já não há alternativa confortável. Em “O Hobbit: A Desolação de Smaug”, ele deixa de ser apenas o hobbit arrastado para uma missão improvável. Começa a agir, decidir, esconder, improvisar e carregar, em silêncio, o peso do Um Anel. O filme poderia tratar essa tensão com mais sutileza, mas ela está ali, rondando cada gesto mais calculado do personagem.

Thorin também se torna mais interessante à medida que perde parte da aura nobre. Richard Armitage dá ao personagem uma rigidez que combina com sua obsessão por Erebor. A retomada da Montanha Solitária não aparece apenas como reparação histórica; carrega vaidade, ressentimento e desejo de posse. A Pedra Arken e o tesouro funcionam como símbolos de uma grandeza que ameaça contaminar o próprio herdeiro. Esse é um dos pontos mais fortes do filme: a aventura externa, povoada por monstros, elfos, orcs e fortalezas, começa a refletir uma degradação interna. A trilogia desenvolveria esse conflito de maneira mais direta depois, mas aqui ele já dá ao personagem uma sombra bem-vinda.

Nada, porém, reorganiza tanto o interesse do longa quanto Smaug. O dragão não é apenas obstáculo final nem criatura digital usada para justificar escala. Sua entrada muda o registro do filme. A partir do encontro com Bilbo, “O Hobbit: A Desolação de Smaug” ganha uma tensão verbal e espacial que vinha fazendo falta. A voz de Benedict Cumberbatch dá ao personagem arrogância, ironia e prazer na intimidação. Smaug fala como quem sabe que domina não só o tesouro, mas o tempo da cena. Seu corpo imenso, serpentino, coberto de ouro e sombra, transforma Erebor em um território de ameaça constante.

O fascínio de Smaug

É diante de Smaug que o filme encontra sua melhor medida entre tecnologia e presença dramática. O efeito visual é evidente, claro, mas não se limita à exibição de força técnica. Smaug tem vaidade, inteligência, crueldade e peso cênico. Ele não existe só para ser admirado; existe para colocar Bilbo em desvantagem. O contraste entre o corpo pequeno do hobbit e a escala absurda do dragão produz a melhor tensão do filme porque, por alguns minutos, a correria cede espaço ao olhar, à palavra, ao silêncio e ao cálculo. Curiosamente, quando o longa desacelera diante de Smaug, ele fica maior.

A questão é que “O Hobbit: A Desolação de Smaug” nem sempre confia nessa força. O filme parece sentir a necessidade de abrir novas frentes, ampliar conflitos e conectar tudo a uma ameaça maior. Gandalf investiga a sombra que cresce na Terra-média, Legolas retorna ao universo cinematográfico, Tauriel surge como personagem criada para os filmes, e a ação paralela dos orcs reforça a ponte com a mitologia de “O Senhor dos Anéis”. Algumas dessas escolhas funcionam melhor do que outras. O retorno de certos elementos amplia o mundo, mas também dispersa o foco. A história de “O Hobbit” era originalmente mais simples, mais direta, mais próxima de uma aventura de formação. Ao transformá-la em uma saga monumental, Jackson ganha escala e perde concentração.

A comparação com “O Senhor dos Anéis” é inevitável, mas precisa ser feita com cuidado. O problema de “O Hobbit: A Desolação de Smaug” não é deixar de ser “O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel”, nem ter outro tom. O problema é tentar, muitas vezes, ocupar o mesmo tamanho simbólico. Quando assume seu lado de aventura, o filme respira melhor. Quando insiste em parecer parte de uma engrenagem épica maior, pesa. A Terra-média continua visualmente rica, a música de Howard Shore ainda convoca memória afetiva, e os ambientes mantêm identidade própria. Mas nem todo retorno a um mundo amado precisa soar como um acontecimento histórico.

Também há um excesso digital que, em certos momentos, afasta a ação de qualquer sensação de perigo físico. A fuga dos barris diverte, mas não tem a mesma ameaça concreta das melhores sequências da trilogia anterior. Alguns combates parecem guiados mais pela lógica do efeito do que pela tensão dramática. Jackson segue como um diretor de imaginação visual poderosa, só que aqui essa força vem acompanhada de certa ansiedade: tudo precisa se mover, crescer, girar, avançar. O resultado é um filme mais vivo que o anterior, mas nem sempre mais preciso.

Ainda assim, “O Hobbit: A Desolação de Smaug” é provavelmente o melhor ponto de equilíbrio da trilogia. Tem ritmo superior ao primeiro filme, uma ameaça mais memorável, um Bilbo mais ativo e um Thorin mais complexo. Seus problemas são claros: duração longa, subtramas em excesso, final em gancho e uma expansão que por vezes parece mais industrial do que narrativa. Mas há cinema forte no encontro com Smaug, há prazer na aventura e há uma percepção bem construída de que o ouro, na Terra-média, nunca é apenas ouro. Ele promete restauração, mas cobra obediência.

A força do filme está nessa contradição. “O Hobbit: A Desolação de Smaug” empolga quando abraça o movimento e incomoda quando se deixa esmagar pela própria ambição. É grande demais, sem dúvida. Mas, ao contrário de muitos filmes inchados, ainda preserva um centro dramático reconhecível. No brilho ameaçador de Smaug, na inquietação de Bilbo e na obsessão crescente de Thorin, a trilogia encontra sua melhor chama. O problema é que, em volta dela, Jackson insiste em acender fogueiras demais.


Filme: O Hobbit: A Desolação de Smaug
Diretor: Peter Jackson
Ano: 2013
Gênero: Aventura/Fantasia
Avaliação: 4/5 1 1
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