A música é plena de casos de gente que se detesta e, não sem boa dose de sacrifício, consegue se suportar, para o bem das carreiras e da experiência emotivo-sensorial do público. Sem sombra de dúvida, o exemplo mais flagrante das picuinhas que fazem a festa dos tabloides e deixam os simples mortais entre curiosos e escandalizados continua a ser o dos “Beatles”, cuja fase terminal é exposta com louvável desassombro em “Get Back” (2021), série documental dirigida por Peter Jackson. “Noturno” pode ser uma versão erudita e doméstica dos arranca-rabos de John, Paul, George e Ringo, frisando-se o terror psicológico com que a britânica Zu Quirke conduz seu filme, numa escalada de tensão com respiros pontuais e a harmonia cartesiana do belo com o repulsivo.
Portas para Mozart
Na primeira sequência, tem-se uma ideia de como Quirke pretende contar sua história. Vagarosamente, a câmera desliza por um corredor repleto de portas até chegar a um quadro de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), que testemunha plácido um episódio de horror. Moira Wilson, a violinista autorreferente de Ji Eun Hwang, atira-se da janela, e algum tempo depois, Juliet Lowe apropria-se do caderno de partituras de Moira, que vem a ela como se a dona lho tivesse dado. Muito do que se vai assistir ao longo de hora e meia desdobra-se a partir desse evento, e a diretora-roteirista sabe quão temerário é fixar-se num único argumento. Suas preocupações são domadas pela atuação de Sydney Sweeney e Madison Iseman, nessa ordem, gêmeas e adversárias figadais. Até que a morte, gloriosa, as separe.

