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A música é plena de casos de gente que se detesta e, não sem boa dose de sacrifício, consegue se suportar, para o bem das carreiras e da experiência emotivo-sensorial do público. Sem sombra de dúvida, o exemplo mais flagrante das picuinhas que fazem a festa dos tabloides e deixam os simples mortais entre curiosos e escandalizados continua a ser o dos “Beatles”, cuja fase terminal é exposta com louvável desassombro em “Get Back” (2021), série documental dirigida por Peter Jackson. “Noturno” pode ser uma versão erudita e doméstica dos arranca-rabos de John, Paul, George e Ringo, frisando-se o terror psicológico com que a britânica Zu Quirke conduz seu filme, numa escalada de tensão com respiros pontuais e a harmonia cartesiana do belo com o repulsivo.

Portas para Mozart

Na primeira sequência, tem-se uma ideia de como Quirke pretende contar sua história. Vagarosamente, a câmera desliza por um corredor repleto de portas até chegar a um quadro de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), que testemunha plácido um episódio de horror. Moira Wilson, a violinista autorreferente de Ji Eun Hwang, atira-se da janela, e algum tempo depois, Juliet Lowe apropria-se do caderno de partituras de Moira, que vem a ela como se a dona lho tivesse dado. Muito do que se vai assistir ao longo de hora e meia desdobra-se a partir desse evento, e a diretora-roteirista sabe quão temerário é fixar-se num único argumento. Suas preocupações são domadas pela atuação de Sydney Sweeney e Madison Iseman, nessa ordem, gêmeas e adversárias figadais. Até que a morte, gloriosa, as separe.


Filme: Noturno
Diretor: Zu Quirke
Ano: 2020
Gênero: Drama/Mistério/Terror
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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