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Depois da morte da esposa Pamela, David Kim (John Cho) tenta manter alguma estabilidade dentro de casa ao lado da filha Margot Kim (Michelle La). Os dois vivem na Califórnia e mantêm uma relação tranquila, ainda que marcada pela distância comum entre pais e adolescentes. Margot passa horas estudando, usa o computador até tarde e conversa mais pela internet do que pessoalmente. David acredita conhecer a rotina da filha, mas essa impressão desaparece quando ela some sem avisar para onde foi.

Em “Buscando”, dirigido por Aneesh Chaganty, o desaparecimento acontece depois de uma noite em que Margot participa de um grupo de estudos. David perde algumas ligações da filha durante a madrugada e, na manhã seguinte, percebe que ela não voltou para casa. A preocupação vira desespero quando ninguém consegue encontrá-la. A polícia inicia uma investigação e a detetive Rosemary Vick (Debra Messing) assume o caso, tentando organizar pistas em meio à pressão da imprensa e da comunidade.

Personalidade desconhecida

David resolve fazer aquilo que muitos pais juram nunca precisar fazer. Ele invade a privacidade da própria filha. O homem acessa o notebook de Margot, abre redes sociais, procura mensagens antigas, observa fotografias e tenta descobrir quem realmente fazia parte da vida dela. O choque aparece aos poucos. A garota que parecia cercada de amigos mantinha contatos superficiais e escondia boa parte dos sentimentos atrás de perfis perfeitamente organizados. Quanto mais David avança pelas contas digitais da filha, mais percebe que viveu ao lado de alguém que conhecia apenas parcialmente.

O roteiro trabalha quase todo o tempo dentro de telas de computador, chamadas de vídeo, vídeos caseiros e aplicativos de conversa. A escolha poderia cansar rápido, mas o filme encontra maneiras inteligentes de transformar ações simples em momentos de tensão. Um cursor parado sobre uma mensagem já cria ansiedade. Uma chamada não atendida ganha peso dramático. Um vídeo assistido até o fim pode mudar completamente a direção da investigação. Tudo acontece em espaços pequenos e familiares. Talvez seja justamente isso que torne a experiência tão desconfortável.

A relação entre David e a detetive Vick passa por mudanças constantes durante a busca. Em alguns momentos, ela parece realmente empenhada em ajudar. Em outros, David sente que a investigação caminha devagar demais para alguém que está perdendo tempo precioso. Ele começa a agir por conta própria, conversa com desconhecidos pela internet, visita lugares ligados à filha e tenta conectar informações espalhadas em aplicativos, contas bancárias e transmissões online. Cada passo abre novas perguntas.

Joseph Lee, que interpreta Peter, irmão de David, participa da história tentando manter o protagonista minimamente equilibrado. Peter observa o desgaste emocional do irmão enquanto o caso cresce nos noticiários locais e atrai curiosos nas redes sociais. O filme retrata muito bem essa transformação de tragédia íntima em espetáculo coletivo. Pessoas que nunca conheceram Margot começam a comentar teorias absurdas na internet com uma confiança quase cômica. Sempre aparece alguém jurando ter solucionado o caso depois de assistir dois vídeos e abrir um fórum suspeito.

Tecnologia que afasta

“Buscando” mostra como a tecnologia aproxima e afasta as pessoas ao mesmo tempo. David consegue acessar praticamente toda a vida digital da filha, mas isso não significa que ele realmente compreenda quem ela era. O filme sugere algo doloroso para muitos pais. Estar presente fisicamente dentro da mesma casa não garante intimidade emocional. Em vários momentos, David revisita vídeos antigos da família e percebe pequenos sinais de tristeza que haviam passado despercebidos.

John Cho carrega o longa quase inteiro sozinho diante da tela de um computador e faz isso sem transformar o personagem em um herói exagerado. David erra bastante durante a investigação. Ele perde a paciência, toma decisões impulsivas e suspeita das pessoas erradas. Essa fragilidade aproxima o personagem do público. O ator transmite cansaço e culpa sem precisar de grandes discursos. Basta observar o silêncio desconfortável dele diante de uma caixa de entrada vazia ou de uma nova mensagem sem resposta.

A direção de Aneesh Chaganty usa os recursos tecnológicos de maneira simples e eficiente. O filme não tenta parecer futurista nem sofisticado demais. As plataformas digitais apresentadas ali fazem parte do cotidiano de qualquer pessoa que usa computador ou celular diariamente. Isso aproxima a tensão da realidade. O espectador percebe que aquelas informações poderiam existir no notebook de qualquer adolescente.

Mesmo sendo um suspense investigativo, “Buscando” mantém o foco nas relações humanas. O desaparecimento de Margot movimenta a trama, mas o centro emocional da história está na tentativa desesperada de um pai corrigir a distância criada ao longo dos anos. Enquanto abre arquivos, revisita fotografias e procura respostas em conversas antigas, David também encara algo muito mais desconfortável. A possibilidade de nunca ter conhecido completamente a própria filha.


Filme: Buscando
Diretor:
Ano: 2019
Gênero: Drama/Mistério/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
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