Autor: Ruth Borges

Ame todas as vezes como se fosse a última

Ame todas as vezes como se fosse a última

Final do ano chegando. Entre promessas, mandingas e orações, à zero hora do novo ano estamos a pedir encarecidamente a providência do sucesso. Fico pensando como deve ser tensa a galera do lado de lá, anotando milhares e milhares de pedidos, vindos de toda parte do planeta. Imagino uma imensa bolsa de valores. Gente ao telefone, gesticulando, correndo com suas cadernetas, desesperados, de um lado para o outro.

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A vida começa quando decidimos parar de agradar à plateia

A vida começa quando decidimos parar de agradar à plateia

É certo que a arte imita a vida. Muitos vivem quase que exclusivamente para atender às expectativas do público, seja por uma questão de vaidade, jogo exibicionista, ou porque acreditam dever constantemente ao outro a condição de servir — sob o custo da angústia e do desespero diante da anulação da própria existência. Aquele que faz tudo para agradar a todos enquanto se desagrada sentirá, cedo ou tarde, o arrombo no peito tomado por um vazio existencial.

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Minhas tatuagens não definem meu caráter, minhas atitudes sim

Minhas tatuagens não definem meu caráter, minhas atitudes sim

O corpo é objeto que assume caráter subjetivo apenas na pós-modernidade. Aos poucos, esse corpo, em constante metamorfose, tornou-se um lugar de inscrição subjetiva. As tatuagens não são um sintoma da modernidade. Múmias do antigo Egito, tribos, clãs, judeus numerados, marinheiros solitários, presidiários, marginais, artistas de circo e os mais libertários — entre ritos, mortos, julgados e feridos, toda essa gente fora tatuada.

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‘Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo, podia-se andar nu’

‘Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo, podia-se andar nu’

Olhar através do buraco da fechadura parece um tanto excitante. Há em nós um espectador “voyeur”, passeando pelas inúmeras janelas indiscretas da internet e das relações cotidianas. Vídeos vazados, nudes, batida de carro, briga de vizinho — dramaturgia sedutora e instigante estimulando a mirada. Para alguns, não há diversão maior do que a novela da vida alheia. É inegável: observar o outro secretamente é tão provocante quanto acompanhar a dança que o olhar da câmera do Hitchcock executa.

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“Guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra”

“Guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra”

Repare bem ao redor. Maquiagem vencida. Retrato empoeirado. Bijuterias oxidadas. Louça de anteontem. Esmalte descascado. Copo com resto de café. As horas se esqueceram de seguir no cuco enguiçado. Por fora, o caos está posto, mas e aí dentro, quais os lixos que te carregam? Ou, quais são as quinquilharias colecionadas? Não, não. Ninguém precisa de tanto entulho no coração. Perdas não passadas tornam-se pedras. Pedregulhos! Enormes! Tanto que interrompem a chegada de um novo ciclo.

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Se for tarde demais, a gente aproveita a madrugada

Se for tarde demais, a gente aproveita a madrugada

Quem vive no passado anda de mãos dadas com a melancolia. Acaba por morar próximo de um vizinho carrasco, cujo nome é o ressentimento. Não há perdão nem à própria história: “aquilo que era vida”, “eu era feliz e não sabia”, “se eu tivesse feito assim, tudo teria sido diferente”. Tortura e sofreguidão, servidos na bandeja dos ressentidos! Entretanto, quem vive no amanhã é amigo próximo da ansiedade. Sempre à espera. Sempre à espreita. E toda essa agitação faz o futuro não chegar.

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