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Bula AchadosO balcão de Montparnasse

O papel em que Georges Méliès desenhava em Paris vinha, às vezes, das caixas de doces da loja. Em 1929, ele fez a tinta um retrato de si mesmo atrás do balcão, preso por correntes. A loja virou cela, o vendedor virou prisioneiro e o conjunto coube numa folha de quinze por dezesseis centímetros. Para conhecer o estabelecimento de Montparnasse, há fotografias. Para saber o que o homem que vendia brinquedos naquela estação pensava de passar os dias ali, convém olhar o desenho.

Vinte e sete anos antes, em “Viagem à Lua”, Méliès arranjara um rosto para a Lua e acertara um de seus olhos com um projétil. Quem viu a cena lembra mais da expressão de desconforto do astro que da proeza dos astrônomos lá dentro. Há uma boa razão. O canhão lança a cápsula a uma distância que ninguém conseguiria imaginar, mas, quando ela chega, a escala muda. Um rosto vem ocupar a tela inteira e uma expedição científica acaba reduzida ao tamanho de um cisco no olho.

Méliès conhecia pelo palco os efeitos de uma aparição bem calculada. Dirigia o Teatro Robert-Houdin, em Paris, e levou para o cinema a experiência do ilusionista que sabe em que ponto do palco a plateia está olhando. Em “Viagem à Lua”, o chefe dos astrônomos era o próprio diretor. Gente do teatro e do circo completava a expedição. A Cinémathèque française identifica entre os habitantes da Lua acrobatas das Folies-Bergère. A destreza de uma criatura de outro mundo dependia, em parte, de quem se conseguia contratar em Paris.

Quando Méliès foi trabalhar na estação, em 1925, já havia perdido os estúdios, o teatro fechara e sua produção de filmes tinha cessado. Cópias haviam sido vendidas, dispersadas ou destruídas. O comércio pertencia à rotina de Jehanne d’Alcy, atriz do Teatro Robert-Houdin e dos filmes de Méliès, que naquele ano se tornou sua segunda mulher. Ela já alugava um ponto na estação desde 1922. Foi ele quem se juntou a ela.

A distinção faz diferença quando se olha o retrato dos dois no acervo da Cinémathèque française. Por volta de 1930, o casal posa junto a um balcão abarrotado de brinquedos. Era a segunda loja que ocuparam em Montparnasse, maior que a primeira e prejudicada por um pilar de cimento que atrapalhava a vista dos passageiros. Em outra fotografia da mesma série, Méliès aparece sozinho, sentado sob a placa que anuncia doces e brinquedos. Quem passava pela estação tinha boas indicações do que se podia comprar ali e nenhuma razão para adivinhar quem estava vendendo.

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Méliès já trabalhava com Jehanne d’Alcy quando a Salle Pleyel voltou a exibir seus filmes. O casal ainda ficaria na estação por mais três anos.

O autorretrato acorrentado acrescenta à cena uma informação que a placa dificilmente comportaria. Méliès ainda pensava em cenários. Bastava-lhe mudar a função daquele balcão e pôr uma corrente no vendedor para que a loja inteira entrasse em outra história. Segundo a cinemateca, nesses anos ele também voltou a desenhar cenas de seus filmes e números de mágica que levara ao teatro. O negócio fornecia assunto e, quando sobrava papel nas caixas, material de trabalho.

Em dezembro de 1929, uma homenagem na Salle Pleyel, em Paris, reuniu Méliès e o público diante de oito de seus filmes recuperados. O reconhecimento chegou a tempo de alcançar o diretor e cedo demais para servir de desfecho à história da loja. O casal continuou vendendo doces e brinquedos até 1932, quando se instalou com a neta no Château d’Orly, residência mantida pela associação de auxílio aos profissionais do cinema. A fotografia tirada por volta de 1930 registra precisamente essa sobreposição. Quando posou junto de Jehanne no balcão da estação, o vendedor já tinha sido aplaudido outra vez como cineasta.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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