Para saber quando o livro foi impresso, é preciso chegar ao fim de quase cinco metros de papel. Ali, depois das palavras do Buda, um homem chamado Wang Jie deixou registrado que mandara fazer aquele exemplar em nome dos pais, para que o texto circulasse entre todos. Deu também o dia. Convertida do calendário chinês, a data corresponde a 11 de maio de 868. Para um livro que passaria séculos escondido numa caverna, era um projeto de circulação bastante ambicioso.
O exemplar do “Sutra do Diamante”, hoje na Biblioteca Britânica, tem 27,6 centímetros de altura e 499,5 de comprimento. As medidas ajudam a entender como se lia aquilo. Sete folhas de papel tingido de amarelo, impressas com matrizes de madeira e coladas umas às outras, compõem um rolo horizontal. Ao abri-lo, o leitor encontra primeiro uma gravura do Buda falando diante de uma assembleia. Ao avançar pelo texto, encontra os trechos sucessivos de uma obra que, fechada, cabe nas mãos.
A nota de Wang Jie ocupa o lugar que os estudiosos do livro chamam de colofão. Graças a ela, a Biblioteca Britânica pode descrever o rolo com uma precisão rara para um impresso dessa idade. Trata-se do mais antigo livro impresso completo de que se conhece um exemplar com data explícita. A distinção importa. A data pertence àquele objeto. A tradução chinesa do sutra já circulava havia séculos, e a técnica de gravar uma matriz, aplicar tinta e transferir o desenho para o papel também tem uma história anterior ao exemplar que chegou até nós.
Na Europa, Gutenberg imprimiria sua Bíblia de tipos móveis em meados do século 15. A oficina que produziu o sutra chinês trabalhava quase seis séculos antes, com outra técnica e para um público que tinha seus próprios motivos para querer mais exemplares de um texto. Na tradição budista, difundir os ensinamentos do Buda era uma forma de obter mérito. O colofão conserva o lado familiar dessa empreitada. O homem que pagou pela impressão quis estender aos pais o benefício do gesto.
O rolo reapareceu em junho de 1900 nas grutas de Mogao, perto de Dunhuang, no noroeste da China. Wang Yuanlu, sacerdote taoista que se ocupara da restauração do lugar, encontrou no corredor de uma das grutas uma porta selada, disfarçada por uma pintura mural. Atrás dela havia uma pequena câmara. Os fardos de papéis, gravuras e pinturas enchiam o espaço do chão ao teto. A câmara recebeu o número 17 e ficou conhecida como a Caverna da Biblioteca.
O ar seco do deserto ajudara a conservar dezenas de milhares de documentos reunidos ali. Predominavam os textos budistas, mas havia também registros administrativos, textos médicos e mapas astronômicos. A vizinhança é instrutiva. Quem estuda o que se lia em Dunhuang pode passar de um sermão a um documento de governo ou a uma carta do céu sem precisar sair daquela sala. Por que ela foi selada, por volta do ano 1000, continua em discussão. A data do livro é mais segura que a história da porta.
Em 1907, o arqueólogo Aurel Stein chegou a Mogao durante sua segunda expedição à Ásia Central. Com o auxílio do intérprete Jiang Xiaowan, obteve de Wang Yuanlu acesso à câmara e adquiriu numerosos fardos. O sutra saiu da China nesse conjunto. Outros pesquisadores vieram depois, e o que por séculos coubera numa única sala acabou repartido entre coleções de vários países.
Hoje é possível percorrer o rolo no catálogo digital do Programa Internacional de Dunhuang. A ficha dá ao exemplar a identificação Or.8210/P.2. O leitor que percorrer os quase cinco metros até a outra ponta encontrará uma identificação bem mais antiga. É o nome de Wang Jie, junto da dedicatória aos pais e do dia em que ele mandou imprimir o livro.

