Em outubro de 1943, uma mulher escreveu a Max Harris, editor da revista australiana “Angry Penguins”, para pedir um favor. Seu irmão Ern havia morrido aos 25 anos. Entre os papéis dele, ela encontrara alguns poemas que tinha dificuldade de entender. Um amigo achava que valia a pena publicá-los. Harris poderia dar uma olhada? A carta vinha assinada por Ethel Malley. Dos três envolvidos nessa correspondência, só o destinatário existia.
A irmã foi talvez a invenção mais feliz dos poetas James McAuley e Harold Stewart, os dois australianos por trás da carta. Ethel tinha a seu favor o desconhecimento que confessava. Podia dar notícias do irmão, antigo mecânico, sem precisar explicar o que um mecânico fazia com alusões a um pintor alemão do século 16. Esse trabalho, delicadamente, ela deixava a cargo do editor. Harris leu os versos e quis conhecer o restante.
McAuley e Stewart serviam no Exército australiano em Melbourne durante a Segunda Guerra Mundial. Tinham pouca paciência com a poesia moderna que a “Angry Penguins” acolhia. Desconfiavam, em particular, da admiração que imagens obscuras conseguiam despertar num leitor disposto a tomá-las por profundas. Resolveram pôr Harris à prova. Para tanto, precisavam escrever poemas ruins com habilidade suficiente para que um poeta os julgasse bons. A dificuldade dessa encomenda talvez devesse ter preocupado os dois um pouco mais.
Segundo o relato que deram depois, aproveitaram livros que tinham à mão, entre eles Shakespeare e um dicionário de rimas. Coube até um trecho de um manual sobre controle de mosquitos. Em “Culture as Exhibit”, a enumeração das águas paradas onde os insetos se reproduzem adquire, pelos cortes dos versos, uma solenidade que seria difícil atribuir às intenções do funcionário encarregado da drenagem. O manual cumprira sua primeira função. Os novos autores imaginavam saber qual seria a segunda.
Uma das peças oferecidas a Harris, contudo, já existia antes da brincadeira. McAuley escrevera a sério o poema sobre Innsbruck e o pintor Albrecht Dürer. Nele, alguém reconhece numa pintura uma cidade que julgava conhecer da própria imaginação. A descoberta o deixa na situação de um cisne negro que se aventurou em águas alheias. Era uma escolha curiosa para abrir o jogo. O editor deveria perceber a falsidade de um poeta cuja primeira amostra era um poema que um de seus inventores havia escrito por conta própria.
No número de outono de 1944, a “Angry Penguins” homenageou Ern Malley com uma capa de Sidney Nolan e publicou os poemas sob o título “The Darkening Ecliptic”. Em junho, a notícia da fraude chegou aos jornais. Os autores assumiram a operação e explicaram seu método. Harris passou pelo vexame público que os dois lhe haviam preparado. Restava saber se sua leitura também precisava de uma retratação.
O crítico inglês Herbert Read, que conhecia a identidade dos autores quando escreveu a Harris em defesa dos versos, deteve-se justamente no cisne negro. Gostava da imagem. Para enganar um leitor exigente, argumentou, os dois tinham precisado mobilizar a imaginação que pretendiam simular. É possível discordar de Read quanto ao cisne, achar excessivas as alusões ou preferir que os mosquitos voltem ao manual. Mas já seria preciso discutir um poema. Saber o nome de quem o escreveu resolvia apenas a parte mais fácil da questão.
Sidney Nolan deu à história uma continuação que depende pouco do gosto de cada um pelos versos. Em 1973, quase trinta anos depois da capa, pintou “Ern Malley (Self-Portrait)”. No quadro, o poeta usa óculos e põe a língua para fora. O retrato do homem que ninguém jamais tinha visto acabou servindo de autorretrato a alguém que o conhecia muito bem.

