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Bula AchadosUma palavra ausente

Faltavam três letras em uma página da Bíblia impressa em Londres em 1631. O restante da frase estava em ordem, o que tornava o defeito particularmente eficiente. No versículo 14 do capítulo 20 do Êxodo, onde deveria estar a proibição do adultério, lia-se “Thou shalt commit adultery”. Em português, “Cometerás adultério”. A palavra “not” havia desaparecido, e o mandamento continuava a falar com a mesma segurança de antes.

A edição ficou conhecida como “Wicked Bible”, ou “Bíblia Perversa”. Era uma impressão da tradução inglesa do rei Jaime, publicada originalmente em 1611, e saíra da oficina de Robert Barker, impressor do rei. Barker e seu sócio Martin Lucas tiveram de responder pelo trabalho. Para quem recebia o privilégio de imprimir as Escrituras, mandar o leitor fazer justamente o que elas proibiam era uma maneira bastante ruim de prestar contas.

O erro é verificável em exemplares preservados. A Biblioteca da Universidade de Cambridge conserva um deles e o descreve em seu catálogo da exposição sobre a Bíblia do rei Jaime. A página permite reconhecer uma peculiaridade que o apelido divertido tende a esconder. Nada precisava parecer defeituoso para que o texto estivesse errado. Não havia uma linha incompreensível, uma palavra monstruosa ou um borrão que pedisse cautela. A frase funcionava perfeitamente.

NOT
Texto esperado · Não cometerás adultério.
Edição de 1631 · Cometerás adultério.
Comparação em tradução portuguesa de Êxodo 20,14.

A impressão de um livro dependia da composição de suas páginas com tipos móveis, da preparação das formas e da leitura das provas. Cada etapa acrescentava uma oportunidade de corrigir alguma coisa ou de deixá-la passar. A pesquisa da Universidade de Canterbury sobre a edição de 1631 situa o episódio numa oficina pressionada por dificuldades financeiras e cortes de custos. Papel ruim, impressão descuidada e falhas de revisão pertenciam ao mesmo ambiente de produção. O mandamento invertido foi o defeito que tornou os demais impossíveis de ignorar.

Segundo a documentação reunida por Cambridge, Barker e o sócio receberam uma multa de 300 libras. O Museum of the Bible, em Washington, registra também a supressão da edição de mil exemplares, dos quais a maioria teria sido destruída ou corrigida. O museu possui justamente um exemplar corrigido no século 17. Alguém tratou de devolver à frase sua pequena peça de sustentação moral.

Convém resistir à tentação de transformar a história numa conspiração particularmente espirituosa. A ausência da palavra está demonstrada. Já a imagem de um tipógrafo malicioso, disposto a reformar os costumes da Inglaterra com três letras a menos, exige uma prova diferente. As pesquisas do projeto de Canterbury tratam o caso no contexto da negligência e dos problemas de produção. Há bastante história aí sem precisar inventar um funcionário libertino escondido atrás da prensa.

Também é preciso algum cuidado com a contagem das sobreviventes. Catálogos e relatos antigos falam em cerca de uma dúzia de cópias. O projeto da Universidade de Canterbury, lançado em 2023 e dedicado à conservação, à digitalização e ao estudo de um exemplar, menciona 25 conhecidas. É uma diferença que lembra como a história dos livros depende dos livros que ainda conseguimos localizar.

O exemplar estudado na Nova Zelândia, chamado Donnithorne-Christchurch, traz outro ganho. A Bíblia está encadernada com três outras obras contemporâneas, preservando uma configuração que se perdeu em muitos volumes separados posteriormente. Tem ainda linhas decorativas vermelhas. Quem o examina pode acompanhar uma história material mais ampla do que a do famoso lapso, feita de trabalhos de oficinas diferentes reunidos numa mesma encadernação.

A fama, porém, continua concentrada na palavra que não está lá. É por causa dela que uma edição defeituosa merece hoje conservação cuidadosa, pesquisa e consulta digital. O leitor interessado no mandamento correto dispõe de incontáveis Bíblias. Para conhecer este pequeno desastre da impressão, precisa encontrar justamente uma que tenha saído errada.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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