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Bula AchadosPapéis de um falsificador

A carta de amor de Shakespeare vinha acompanhada de versos e de uma mecha de cabelo. Tudo concorria para dar ao destinatário de fins do século XVIII a impressão de ter chegado muito perto da intimidade do poeta. A destinatária anunciada era Anne Hathaway. O autor da descoberta, e também da carta, era um rapaz chamado William Henry Ireland.

Em 1794, Ireland produziu um documento com uma falsa assinatura de Shakespeare. O pai, Samuel, admirava o dramaturgo e ajudaria a divulgar os papéis apresentados pelo filho. Uma assinatura já seria bastante para entusiasmar um colecionador. William Henry encontrou utilidade para a mão que aprendera a imitar. Pôs o poeta a declarar sua fé, a tratar de negócios e a escrever à mulher amada. Aos poucos, as supostas descobertas passaram a suprir justamente as ausências que tanto incomodam quem procura conhecer a vida particular de um escritor.

A Folger Shakespeare Library conserva um conjunto que dá boa medida do trabalho. Há versos amorosos ao lado de recibos ligados ao teatro e de uma nota promissória. As peças miúdas são das mais engenhosas. Um leitor pode desconfiar da felicidade de encontrar um poema inédito. Já um recibo, com a sua vocação para o esquecimento, parece coisa perfeitamente razoável de se achar entre papéis velhos. Ireland soube explorar o prestígio discreto dos documentos banais.

Foi mais longe. Fabricou um catálogo dos livros que Shakespeare teria possuído. O manuscrito pertence hoje à University College London. É um salto considerável para quem começara por uma assinatura. Atribuir um livro ao poeta como parte de sua biblioteca era também sugerir o que ele lera, que autores poderia ter consultado, que passagem talvez tivesse sublinhado. Um pesquisador disposto a confiar no catálogo teria bastante trabalho pela frente e uma boa chance de realizá-lo todo em vão.

O passo mais arriscado foi entregar ao público uma peça inteira. “Vortigern” chegou ao Theatre Royal, em Drury Lane, Londres, em 2 de abril de 1796. Quem quisesse acreditar teria agora de ouvir os diálogos na voz dos atores, acompanhar uma trama e reconhecer nela o talento de Shakespeare. Havia ainda um inconveniente para a estreia. No mês anterior, o estudioso Edmond Malone publicara uma crítica de 424 páginas à autenticidade dos documentos.

A plateia reagiu com vaias. O ator John Philip Kemble repetiu uma fala que mencionava o fim de uma solene impostura, segundo o relato da Lilly Library, da Universidade de Indiana. Dificilmente Ireland poderia ter escrito frase mais convidativa para um ator inclinado a sublinhar o duplo sentido. A mesma peça que precisava convencer a sala de que Shakespeare voltara a falar oferecia à plateia palavras para zombar da atribuição.

Há exemplares das falsificações de Ireland em acervos americanos e britânicos, entre eles a British Library. A sorte desses papéis tem certa graça. Perderam o autor que lhes dava preço e ganharam outro, com nome, sobrenome e obra digna de catálogo. Quem pede hoje para consultar a carta a Anne Hathaway pode recebê-la das mãos de um bibliotecário e saber, antes mesmo de abrir a pasta, quem de fato a escreveu.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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