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Bula AchadosUma película em disputa

A Biblioteca Nacional da França guarda um folheto de divulgação de “Nosferatu”. O papel é de 1922 e fazia o trabalho modesto de anunciar um filme. Por pouco não teria hoje uma responsabilidade bem maior, a de mostrar ao público o que já não se poderia ver numa tela. Uma decisão judicial mandou destruir as cópias da obra que ele anunciava.

O filme dirigido por Friedrich Wilhelm Murnau tinha tomado de empréstimo o enredo de “Drácula”, de Bram Stoker. A produtora alemã Prana não obtivera autorização para adaptar o romance. Havia diferenças suficientes para ocupar uma boa conversa depois da sessão. O conde ganhara o nome de Orlok. Parte da ação passara da Inglaterra para a Alemanha. O vampiro que desembarcava de navio trazia consigo ratos e a ameaça da peste. Continuava bastante fácil reconhecer de que livro partira a viagem.

Também o rosto era novo. Max Schreck fazia de Orlok uma criatura de cabeça calva, orelhas pontudas e dedos compridos demais para o conforto de quem os via se aproximar. Murnau descobriu quanto desse corpo podia subtrair à cena sem diminuir o medo. Basta a sombra de uma mão para que o espectador acompanhe, dedo por dedo, um gesto cujo autor ficou fora do quadro. É uma das razões pelas quais ainda se fala do filme. Na disputa pelos direitos, a invenção dessa imagem não resolvia a questão levantada pela família de Stoker.

Florence Stoker, viúva do escritor, processou a produtora e venceu. Segundo o British Film Institute, a ordem determinava a destruição de todas as cópias. Para ela, tratava-se de defender o direito de autor sobre um romance que uma empresa levara às telas sem licença. Para a história do cinema, o que estava em jogo era também a existência física de um filme. Os dois interesses se cruzaram quando cumprir a decisão passou a depender de localizar os rolos.

Um negativo pode dar origem a diversas cópias. Uma cópia segue para exibição enquanto outra permanece em outro lugar. A diferença entre mandar destruir um filme e conseguir destruí-lo por inteiro cabe nessa pequena circunstância de distribuição. Houve perdas concretas. A Biblioteca Nacional da França registra a destruição de negativos e de numerosas cópias. Houve também material que escapou. A sobrevivência de “Nosferatu” não exige a lenda de um salvador único, escondendo a última lata num armário.

A partir dos anos 1980, o filme passou por sucessivas restaurações. A data ajuda a perceber quanto trabalho se esconde na aparente facilidade com que hoje se pode assistir a uma cena de 1922. Entre o gesto filmado por Murnau e a imagem disponível ao espectador houve gente ocupada em conservar, comparar e restaurar o que restava. O folheto francês, sozinho, teria permitido estudar como a produtora apresentou o vampiro ao público. Graças às cópias, ainda se pode esperar que a mão avance pela parede.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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