Em 10 de fevereiro de 1962, perto da Pont au Double, em Paris, o escritor Michael Blankfort comprou uma obra de Yves Klein. Quem esperasse ver os dois embrulharem um quadro teria perdido a parte mais interessante da entrega. O negócio exigia ouro, fogo e testemunhas. O Sena servia para receber uma parcela do pagamento.
Desde 1959, Klein negociava o que chamava de zonas de sensibilidade pictórica imaterial. O nome comprido designava algo que cabia perfeitamente numa sala já mobiliada. O adquirente podia ir embora com um recibo. Em casa, teria um papel para mostrar aos amigos e uma dificuldade bastante concreta se algum deles pedisse para ver a obra.
O recibo tinha importância suficiente para que o artista estabelecesse por escrito as consequências de conservá-lo. Havia uma venda e havia, a critério do comprador, uma segunda operação. Para consumar a transferência tal como Klein a concebera, era preciso pôr fogo no comprovante. Cabia ao artista fazer um sacrifício de sua parte. Ele ficaria com metade do ouro. A outra metade deveria ir para um rio, para o mar ou para algum ponto da natureza onde ninguém pudesse recuperá-la.
Até a assistência estava prevista. Pelas regras de Klein, um diretor de museu, um especialista de galeria ou um crítico de arte devia presenciar o ato, junto com mais duas testemunhas. É uma formalidade curiosa para a aquisição de algo invisível. Quanto menos havia para pendurar na parede, mais precisamente o artista determinava quem tinha de estar presente e o que cada um faria com as mãos.
A fotografia da transferência a Blankfort consta do arquivo do artista. Ela permite localizar a ação em Paris e distinguir um episódio ocorrido de uma instrução que poderia ter ficado no papel. O historiador da arte Denys Riout identifica três compradores que levaram a operação até o fim, entre eles o escritor italiano Dino Buzzati. O fogo e o lançamento do ouro pertenciam a essa modalidade completa da transação. Nem todo recibo emitido acabou em cinzas.
A diferença faz pensar no destino habitual de um comprovante. Numa compra comum, quem desconfia que virá a precisar de prova guarda o papel numa pasta. Klein oferecia ao cliente precisamente essa possibilidade e reservava outra experiência a quem aceitasse abrir mão dela. Também se impunha um custo. Teria sido fácil exigir um gesto extravagante do comprador e embolsar o pagamento inteiro. Na margem do Sena, a outra metade saiu de suas mãos.
O recibo, por sinal, revelou uma excelente aptidão para sobreviver ao próprio autor. Um exemplar conservado chegou a leilão na Sotheby’s em 2022. Alguém guardara o pedaço de papel que, segundo a lógica da obra, seria mais proveitoso queimar. O mercado de arte encontrou comprador também para essa decisão.

