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Bula AchadosImpressão pela luz

Entre as fotografias mais antigas conservadas no Brasil há uma folha de rótulos para frascos de farmácia. Os frascos ficaram de fora. O que Hercule Florence quis reproduzir foram os desenhos que se colariam ao vidro. A ficha da Brasiliana Fotográfica dá o lugar e o ano da experiência. Foi na Vila de São Carlos, hoje Campinas, em 1833. Faltavam seis anos para a França anunciar o daguerreótipo.

Florence tinha um problema de desenhista. Depois de terminar um original, como tirar dele várias cópias sem tornar a desenhá-lo? Já vinha experimentando um método de impressão a que dera o nome de poligrafia. Em 15 de janeiro de 1833, registrou outra possibilidade. A luz poderia imprimir. A botica entra na história antes mesmo dos rótulos. Joaquim Corrêa de Mello, boticário que trabalhava na farmácia do sogro de Florence, lhe explicara o que acontecia ao nitrato de prata quando exposto à luz.

Nas primeiras tentativas, Florence construiu câmaras escuras e usou papel sensibilizado. Entre os motivos que escolheu estava a vista de sua janela. Depois de quatro horas de exposição, conseguia uma imagem invertida, com os valores de claro e escuro trocados. O desapontamento maior vinha depois. Ao trazer o papel para a claridade, ele continuava a escurecer. A mesma luz que desenhara a vista acabava por apagá-la. Dessa janela restou o relato nos manuscritos.

Com os rótulos, Florence mudou a disposição das coisas. Cobriu um vidro com fuligem e riscou o desenho nessa camada escura. Onde a ponta passava, abria caminho para o sol. Encostou o vidro numa folha preparada para reagir à luz e expôs o conjunto. O desenho podia passar do vidro ao papel sem uma gota de tinta. Guardar a matriz significava poder repetir a operação, vantagem considerável para quem precisava de uma série de etiquetas iguais.

A solução ajuda a explicar o aspecto pouco familiar da fotografia. Quem procurar uma prateleira de botica ou o retrato do boticário encontrará letras e ornamentos. O parentesco com as fotografias de hoje está no modo como o papel recebeu a imagem. Para saber o que houve ali, convém perguntar como aquelas linhas chegaram à folha. Olhar apenas para o assunto levaria muita gente a catalogar a peça entre os impressos e seguir adiante.

Florence ensaiou ainda maneiras de fazer a imagem durar. O instituto que conserva seus manuscritos documenta testes com derivados de prata e com cloreto de ouro, além do uso de amônia no tratamento das cópias. Há uma diferença material entre essas experiências e a da janela. Das cópias por contato sobreviveram exemplares. Entre eles estão as folhas de rótulos e a reprodução de um diploma maçônico.

Em 1839, François Arago anunciou na França o processo de Louis Daguerre. A data tem lugar certo na história do daguerreótipo. O que ela não conta, sozinha, é o percurso do desenhista que já havia feito o sol trabalhar para uma farmácia no interior paulista. Em Campinas, Florence buscava um meio de multiplicar desenhos. Dessa busca saiu um processo fotográfico independente, com dificuldades, usos e resultados que ele próprio anotou.

Quase dois séculos depois, três peças seguiram para exame no laboratório HERCULES, da Universidade de Évora, numa pesquisa com o Getty Conservation Institute e os dois institutos brasileiros responsáveis pelos acervos. Eram duas provas de rótulos e uma de diploma. Em 2023, os pesquisadores apresentaram os resultados. Poucos objetos de uso tão modesto tiveram uma segunda carreira parecida. O rótulo que devia ajudar alguém a identificar o conteúdo de um frasco acabou ajudando a identificar o que se inventava em Campinas.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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