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No fim do dia, as mesas da Biblioteca Joanina recebem coberturas de couro. O cuidado parece excessivo num lugar construído para guardar livros, até que se conhece a outra população do edifício. Há morcegos morando ali. Seus dejetos podem estragar o mobiliário; seu apetite por insetos ajuda a proteger o acervo. A convivência exige providências bastante materiais.

A biblioteca fica na Universidade de Coimbra, em Portugal. Segundo a própria universidade, duas colônias ocupam o espaço há pelo menos dois séculos e meio e contribuem para o controle de pragas. A informação dispensa o esforço de transformar o episódio em lenda. Uma instituição encarregada de conservar livros antigos reconhece a utilidade de pequenos mamíferos voadores entre suas estantes.

Para os animais, naturalmente, os livros não têm interesse literário. São os insetos que oferecem alimento. O resultado dessa atividade beneficia uma coleção vulnerável justamente a organismos capazes de danificar o papel. Chamar os morcegos de guardiões é uma licença simpática, desde que se conserve a diferença entre procurar comida e exercer uma profissão.

O cenário torna o arranjo ainda mais curioso. D. João V mandou erguer a biblioteca em 1717, conforme a documentação do Turismo do Centro de Portugal. Os salões barrocos reúnem tetos pintados, estantes ornamentadas e douramento. A construção representa uma ideia monumental do saber, cercada de sinais de prestígio real. Os morcegos acrescentam a esse programa uma participação que dificilmente seria lembrada num retrato oficial.

O edifício também protege por meios menos visíveis. Suas paredes externas têm 2,11 metros de espessura, e a arquitetura contribui para as condições de conservação. O acervo inclui obras de medicina, geografia, história, direito, filosofia e teologia. Para atravessar os séculos, todas elas dependem de algo anterior à interpretação de seus leitores, a sobrevivência física do volume.

A proteção das mesas revela o preço miúdo dessa parceria. Manter os animais no espaço implica lidar com o que deixam para trás. O couro faz parte da rotina que permite conservar o mobiliário e tolerar os moradores. A solução é menos romântica do que a imagem de uma biblioteca patrulhada por asas, e justamente por isso ajuda a compreender como a convivência funciona.

A Joanina conserva cerca de 60 mil volumes, informa a universidade, e suas obras continuam disponíveis para consulta. O visitante encontra um monumento, mas o objeto guardado nas estantes ainda tem uso. Entre admirar uma encadernação e precisar abrir um livro para pesquisar, há uma diferença que a conservação deve atender.

Os morcegos participam desse trabalho sem substituir os cuidados humanos nem a proteção oferecida pelo prédio. A curiosidade seria fácil de exagerar até lhes atribuir a sobrevivência de toda a biblioteca. O detalhe documentado já é suficiente. Em Coimbra, preservar livros inclui aceitar hóspedes que comem insetos e lembrar, antes de encerrar o dia, de cobrir as mesas.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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