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Bula AchadosMemória do cinema

O negativo tinha riscos, desgaste e imagens que nenhum tratamento conseguiria devolver à condição de novas. Guardava, porém, cenas de “Metrópolis” que haviam desaparecido das versões conhecidas do filme. Em 2008, o Museo del Cine Pablo Ducrós Hicken, em Buenos Aires, tornou-se o centro de uma descoberta que obrigaria especialistas a voltar à mesa de montagem. Um dos filmes mais estudados do cinema ainda tinha coisas importantes para mostrar.

Convém acertar desde logo o tamanho do achado. O longa de Fritz Lang, lançado em 1927, nunca estivera inteiramente perdido. Circulava, era admirado, restaurado, incluído nas listas de obras fundamentais. O que faltava eram partes de sua construção narrativa, retiradas depois da estreia. A familiaridade com suas imagens podia fazer esquecer que o objeto dessa admiração chegara ao público mutilado.

A história argentina também dispensa a cena confortável do pesquisador que tropeça numa lata esquecida. Em entrevista ao jornal “Página/12”, naquele mesmo ano, a diretora do museu, Paula Félix-Didier, esclareceu que a película estava catalogada e inventariada. A descoberta foi reconhecer que aquela cópia continha uma versão diferente da habitual. Saber que um filme está no acervo e saber exatamente qual filme está ali são trabalhos distintos.

Félix-Didier destacou a participação do pesquisador Fernando Martín Peña nessa identificação. A investigação exigia reconstituir a circulação da obra em Buenos Aires. O material pertencera à coleção de Manuel Peña Rodríguez, passara pelo Fondo Nacional de las Artes e chegara ao museu. Ao longo desse percurso, a película em nitrato de 35 milímetros fora copiada para 16 milímetros. Era nesse suporte menor que as cenas sobreviviam.

Três momentos

Uma obra ainda em reconstrução

Cronologia: 1927, estreia; 2008, identificação das cenas em Buenos Aires; 2010, apresentação da restauração.1927Estreia em Berlim2008O achado de Buenos Aires2010A restauração volta à tela
Por que a cópia de 16 mm foi decisiva?
Ela conservava cenas ausentes das versões conhecidas e ajudou a reconstituir a montagem. O desgaste do material impôs limites à restauração, que aproximou o filme da versão de estreia sem recuperá-la integralmente.

A comunicação da Fundação Friedrich Wilhelm Murnau, divulgada em julho de 2008, dá uma medida concreta do que voltava. Georgy, Josaphat e o personagem conhecido como o Homem Magro haviam sido reduzidos pela supressão de cenas. Reapareciam ações, relações e passagens que ajudavam a entender o comportamento deles. Para quem conhecia o filme abreviado, certos personagens pareciam subitamente ganhar tempo para existir.

O efeito ia além de acrescentar alguns minutos ao espetáculo. Uma montagem distribui atenção, aproxima acontecimentos e decide quanto sabemos de alguém antes de vê-lo agir. Cortar uma sequência pode economizar tempo e retirar junto a explicação de outra. O espectador continua vendo imagens extraordinárias, mas precisa atravessar buracos que não foram abertos pelo diretor.

A restauração anterior, de 2001, já reunira materiais de diferentes arquivos e representara um avanço considerável. Havia também um longo trabalho de reconstrução apoiado em documentos e imagens fixas. O achado de Buenos Aires oferecia outra espécie de evidência. As cenas podiam voltar a se mover, e a própria ordem dos planos existentes podia ser revista à luz daquela cópia.

Restava enfrentar sua condição física. Em relato publicado pela TCM, os restauradores explicaram que parte dos danos já estava incorporada à duplicação em 16 milímetros. Limpar digitalmente a imagem não equivalia, portanto, a retirar uma sujeira superficial. Era preciso reduzir riscos e oscilações sem manipular o material a ponto de apagar o que se pretendia preservar.

A versão restaurada teve apresentações em Berlim e Frankfurt em 12 de fevereiro de 2010. A Fundação Murnau a descreve como uma aproximação à versão de estreia, quase completa. O cuidado com esse “quase” faz parte do resultado. Depois de décadas de cortes, perdas e reconstruções, seria fácil vender a chegada a uma forma definitiva. Os próprios responsáveis preferiram reconhecer os limites do material.

Há algo de instrutivo nessa diferença entre a fama de uma obra e o conhecimento que temos dela. “Metrópolis” já ocupava seu lugar na história quando o arquivo argentino revelou o que ainda faltava. A consagração não havia encerrado o trabalho. Nas passagens recuperadas, a imagem continua mais castigada. São cenas que voltaram trazendo as marcas da cópia que conseguiu sobreviver.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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