Zé do Caixão afundava nas águas de um lago, atingido por tiros, e ainda encontrava fôlego para negar Deus. Era o desfecho previsto para “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”, de José Mojica Marins. Antes de chegar ao público, porém, a cena precisou acomodar uma conversão. A censura exigiu que o personagem declarasse sua fé e pedisse salvação.
A mudança está registrada na Filmografia Brasileira, base da Cinemateca, que descreve o veto ao longa e a substituição das falas como condição para liberá-lo. Onde o homem insistia na descrença, passou a reconhecer o poder divino e a pedir a cruz ao padre. A intervenção alcançava justamente o momento em que ele já não teria outra cena para se explicar.
As últimas palavras foram trocadas
O que mudou no desfecho?
Mojica criara e interpretara o personagem em “À Meia-Noite Levarei Sua Alma”, lançado em 1964. Zé era um agente funerário obcecado por gerar um filho que perpetuasse seu sangue, capaz de matar quem atrapalhasse o projeto. A cartola, a capa e as unhas compridas ajudavam a fixar a figura. Sua recusa da religião dava ao comportamento uma direção particular, em confronto com as crenças da comunidade que ele aterrorizava.
O diretor trabalhava com um repertório aprendido desde menino. Seu pai fora gerente de cinema e, numa entrevista à revista universitária “RUA”, Mojica contou que assistia a filmes de Bela Lugosi da cabine de projeção. Observava também os sustos da plateia. Esse interesse pelo efeito físico do medo ajuda a entender um cinema feito para provocar reações imediatas, com uma franqueza que passava longe da discrição.
Em “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”, a busca pela mulher que geraria o filho prosseguia por meio de provas de crueldade. Havia espaço até para um inferno de gelo, filmado em cores dentro de um longa predominantemente em preto e branco. Mojica podia imaginar aquele espetáculo. Para pôr o resultado em circulação, precisava submetê-lo à avaliação de funcionários com poder de impedir sua exibição.
O tratamento dispensado ao filme foi descrito por Inimá Simões no ensaio “Sessenta e Oito Começou Bem Antes”, publicado na revista “Acervo”, do Arquivo Nacional. Segundo o pesquisador, um dos censores chegou a sugerir a prisão do diretor. O artigo reproduz ainda um parecer datado de novembro de 1966. A hostilidade à obra podia ultrapassar a tela e atingir o homem que a havia realizado.
Simões compara a situação de Mojica à de Glauber Rocha, cujo “Terra em Transe” também enfrentou uma proibição inicial em 1967. Glauber contou com mobilização na imprensa, advogados e repercussão internacional. No relato do pesquisador, Mojica tinha menos acesso a esses recursos e acabou aceitando cortes e a alteração do final. A possibilidade de contestar uma decisão dependia bastante do amparo que cada cineasta conseguia reunir fora do cinema.
O caso permite observar um serviço menos lembrado da censura, sua disposição para escrever. Ao impor novas palavras, os funcionários participavam da construção do personagem. Uma declaração de fé no instante da morte faz o espectador reconsiderar a trajetória anterior, como se o medo tivesse finalmente vencido suas convicções. Essa é uma leitura possível da cena alterada. O documento sobre a intervenção mostra que a guinada havia sido exigida para autorizar a exibição.
Seria pobre reduzir o episódio a uma excentricidade de repartição. A pesquisadora Leonor Souza Pinto, entrevistada pela revista “Pesquisa FAPESP” sobre os processos da censura cinematográfica, chamou a atenção para o caráter organizado desse controle. As mudanças de teor moral também determinavam quais valores podiam chegar ao público. No filme de Mojica, isso ganhava a forma muito concreta de uma fala que precisava ser trocada.
A ficha da Cinemateca registra o certificado de Censura Federal de 10 de março de 1967, com proibição para menores de 18 anos, e o lançamento em São Paulo no dia 13. A obra pôde, enfim, entrar no circuito. O espectador que encontrasse um Zé do Caixão arrependido no lago teria diante de si o resultado dessa negociação desigual.
Em 2012, quando a entrevistadora Estela Andrade perguntou a Mojica como ele encarava a censura durante a ditadura, a primeira resposta foi “Revoltado”. Depois, o cineasta falou da perseguição que sentira e da vontade de continuar fazendo terror. O depoimento foi dado por ocasião de uma exibição de “À Meia-Noite Levarei Sua Alma”, o filme em que aquele homem de cartola começara a incomodar.

