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Bula AchadosO francês de Cleópatra

Cleópatra escrevia em francês. Pelo menos era assim nos papéis que Denis Vrain-Lucas vendia ao matemático Michel Chasles, em Paris, no século XIX. A rainha do Egito se correspondia com Júlio César numa língua que surgiria muitos séculos depois da morte dos dois. O detalhe deveria encerrar o negócio. Não encerrou.

Chasles comprou mais de 27 mil documentos do fornecedor, que distribuía assinaturas célebres com uma generosidade difícil de encontrar nos arquivos. Havia cartas atribuídas a Alexandre, Galileu, Pascal e Newton, além de personagens bíblicos. Essa multidão, separada por épocas, países e idiomas, dependia da mesma mão para escrever.

O comprador tampouco era um ignorante que tropeçara numa loja de antiguidades. Professor da Sorbonne e membro da Academia de Ciências francesa, Chasles tinha uma carreira importante na geometria. Seu caso ficou registrado numa história da matemática da Universidade de St Andrews justamente pelo desconforto que provoca. A competência para resolver problemas difíceis não o impediu de aceitar documentos com problemas bastante elementares.

A relação comercial começou em 1861. Vrain-Lucas oferecia acesso a uma coleção extraordinária, e o colecionador encontrava ali material para alimentar seu interesse pela história. À procedência dos manuscritos acrescentava-se uma narrativa conveniente, envolvendo antigos proprietários e papéis que haviam atravessado gerações. Um documento raro vinha acompanhado da história que explicava por que ninguém o conhecia.

O golpe ganhou outra dimensão quando entrou em jogo a autoria da gravitação universal. Algumas das cartas supostamente trocadas por Pascal, Newton e outros cientistas permitiam atribuir ao francês uma descoberta consagrada ao inglês. Para um estudioso interessado no prestígio científico de seu país, a aquisição prometia render mais que uma boa coleção. Oferecia a possibilidade de corrigir os livros.

Em 1867, Chasles apresentou seus documentos à Academia. Houve resistência. As letras não correspondiam às de manuscritos reconhecidos como autênticos, e as datas criavam dificuldades. A correspondência atribuía a Newton discussões científicas numa época em que ele ainda era criança. Vrain-Lucas, porém, tinha uma solução comercialmente vantajosa para as objeções. Fornecia mais cartas.

O RetroNews, serviço de imprensa histórica ligado à Biblioteca Nacional da França, reúne relatos do escândalo publicados nos jornais. Eles mostram uma discussão que se prolongava alimentada por novos documentos explicativos. Uma peça suspeita recebia o apoio de outra, adquirida do mesmo fornecedor. A verificação acabava devolvendo o comprador ao homem cuja mercadoria precisava ser verificada.

A extensão do repertório torna o episódio ainda mais estranho. Uma exposição da Universidade de Delaware apresenta fac-símiles publicados no relato contemporâneo do caso. Num deles, Safo escreve a Fáon; em outro, César ameaça Vercingetórix. Os textos estão em francês moderno. O falsificador podia variar a assinatura e dar ao papel uma aparência antiga, mas não conseguia fazer a língua acompanhar a viagem.

Convém, portanto, separar os documentos de sua embalagem narrativa. Não se trata da descoberta de cartas de Cleópatra posteriormente traduzidas para consulta. Trata-se de peças fabricadas no século XIX e introduzidas no comércio como testemunhos de um passado que lhes emprestava valor. A atribuição era parte essencial da fraude.

Vrain-Lucas foi preso em setembro de 1869 e julgado em fevereiro de 1870. A condenação foi de dois anos de prisão, acompanhada de multa. Henri Bordier e Émile Mabille, especialistas que participaram da investigação, publicaram naquele ano “Une fabrique de faux autographes”, um relato da operação com reproduções e transcrições. O que sustentara a coleção passou a servir como prova contra seu fabricante.

A maior parte das falsificações foi destruída. Uma seleção, preservada pelos especialistas e entregue à Biblioteca Nacional da França, ficou reunida num volume identificado como Nouvelles acquisitions françaises 709. Esses papéis têm hoje uma procedência que pode ser estudada. Sua importância está no trabalho de Vrain-Lucas e na história de quem acreditou nele.

Chasles pagara para aproximar-se de grandes personagens. Recebeu milhares de oportunidades de ouvir o que desejava que eles tivessem dito. Entre os sobreviventes daquele comércio, o francês de Cleópatra deixou de ser uma dificuldade a contornar. Tornou-se a parte mais reveladora da carta.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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