Havia latas de filme num armário do hospital psiquiátrico de Dikemark, perto de Oslo. Em 1981, um funcionário que fazia uma limpeza encontrou o material, depois encaminhado ao Instituto Norueguês de Cinema. Entre os rolos estava uma cópia de “A Paixão de Joana d’Arc”, realizado pelo dinamarquês Carl Theodor Dreyer e lançado em 1928. O título era conhecido. A surpresa estava na montagem, que preservava a versão original de uma obra submetida, durante décadas, a incêndios e intervenções alheias.
Convém fazer essa distinção porque a história costuma circular como a descoberta de um filme inteiramente desaparecido. “A Paixão de Joana d’Arc” continuava a ser visto, estudado e admirado. O problema era saber quanto daquilo que chegava à tela correspondia às decisões de Dreyer. Havia cópias de versões diferentes, remontagens e cortes. A reputação da obra resistira melhor que seus materiais.
Rodado na França, o filme concentra o julgamento e a morte de Joana, interpretada por Renée Falconetti. Dreyer trabalhou sobre os registros do processo com o auxílio do historiador Pierre Champion. A câmera se aproxima dos rostos de maneira pouco confortável, especialmente do rosto da acusada. Os olhos de Falconetti, sua boca e as pequenas mudanças de expressão ocupam o espaço que outro diretor talvez reservasse a batalhas e reconstituições movimentadas. É um filme histórico que exige do espectador a atenção de quem observa alguém muito de perto.
A estreia ocorreu em Copenhague em 21 de abril de 1928. Para a exibição francesa, vieram exigências de cortes. Em 6 de dezembro daquele ano, um incêndio nos laboratórios da Ufa, em Berlim, destruiu o negativo original. O filme mal começara a circular e já precisava ser reconstruído.
Dreyer e a montadora Marguerite Beaugé recorreram às tomadas que tinham ficado de fora. Como o diretor repetia as cenas, havia material para montar uma segunda versão próxima da primeira. Próxima, porém, não significava idêntica. Uma tomada alternativa conserva o ator, o cenário, o gesto previsto. Não conserva necessariamente o mesmo olhar. Essa diferença pesa bastante num filme que depende tanto de um rosto. A documentação da Janus Films e da Cinemateca Portuguesa registra ainda a perda do segundo negativo em outro incêndio, em 1929.
Em 1951, o historiador de cinema Joseph-Marie Lo Duca encontrou um negativo sobrevivente dessa segunda versão. Preparou então sua própria apresentação do filme. Substituiu parte dos intertítulos por legendas sobre a imagem e acrescentou fundos ilustrados aos cartões de texto que manteve. Vieram também alterações sonoras. Dreyer contestou o resultado. O espectador podia estar diante de uma obra-prima e, ao mesmo tempo, de decisões que seu autor havia recusado.
Num filme mudo, o cartão que interrompe a imagem também participa do ritmo. Sua retirada muda o tempo concedido ao rosto antes que apareça a pergunta seguinte. Por isso, recuperar uma montagem envolve mais que restituir cenas suprimidas. Envolve devolver a cada imagem sua vizinhança, sua duração, o intervalo que a separa da próxima. O trabalho do arquivo chega até esses detalhes, pouco vistosos quando descritos numa ficha.
As latas de Dikemark ofereceram uma referência decisiva. Segundo o material de apresentação da Janus, a cópia vinha acompanhada de papel com o carimbo de aprovação da censura dinamarquesa, datado de 1928. O pacote preservara tanto o filme quanto uma pista documental de sua procedência. Tratava-se de uma cópia de exibição da primeira versão, não do negativo que o fogo consumira.
Da estreia à restauração
- 1928Estreia em CopenhagueEm 21 de abril, o público vê a primeira montagem. Em dezembro, o negativo original é destruído num incêndio.
- 1981O achado em DikemarkUma cópia da versão original é encontrada no hospital norueguês e encaminhada ao instituto de cinema.
- 2015Restauração digitalA Gaumont restaura o filme a partir de um negativo duplicado da cópia preservada.
O que foi recuperado?
O caminho até o hospital é menos seguro que o achado. A hipótese mencionada pela distribuidora aponta para Harald Arnesen, que dirigia a instituição na época do lançamento e pode ter desejado exibir o filme a funcionários e pacientes. É uma explicação plausível, mas o detalhe merece continuar no condicional. As latas sobreviveram; o relato completo de sua viagem, não.
Encontrar os rolos também não encerrava o serviço. Era preciso identificar a versão, preservá-la e produzir novos materiais. Em 2015, a Gaumont realizou uma restauração digital, financiada pelo órgão francês de cinema, o CNC. O trabalho partiu da digitalização em 2K de um negativo duplicado feito a partir da cópia em nitrato conservada pelo Instituto Dinamarquês de Cinema. Entre o armário e a sala de projeção houve, portanto, um trabalho técnico que a anedota geralmente pula.
A descoberta permitiu recuperar a montagem. A restauração digital ampliou sua circulação e tornou possível exibi-la sem submeter a velha película a mais uma passagem pelo projetor. Para aqueles rolos encontrados durante uma limpeza, já era uma mudança considerável de endereço.

