O livro falava da alma. Sua encadernação havia sido feita com pele humana. Durante noventa anos, um exemplar de “Des destinées de l’âme”, do escritor francês Arsène Houssaye, permaneceu em Harvard com essa combinação que parece inventada por um contista de gosto macabro. Em março de 2024, a universidade anunciou a retirada da pele. A pessoa de quem ela fora tomada continuava sem nome.
O responsável pela encadernação foi o médico e bibliófilo Ludovic Bouland, proprietário do volume no século XIX. A biblioteca atribui a ele a retirada e o uso do material sem consentimento. É importante distinguir o autor do livro de quem decidiu revesti-lo daquela maneira. Houssaye escreveu uma reflexão sobre a alma e a vida depois da morte. Bouland transformou seu exemplar num objeto cuja história acabou por encobrir o texto.
Numa nota manuscrita inserida no volume, o médico justificou a escolha associando o assunto do livro a um revestimento humano. O raciocínio tratava a pele de uma mulher como oportunidade de produzir uma peça singular. A ela não era oferecido lugar nessa explicação, além do material fornecido pelo corpo. O colecionador registrou a própria ideia. A identidade da pessoa permaneceu ausente.
O exemplar chegou a Harvard em 1934, depositado pelo diplomata americano John B. Stetson Jr. Passou à Houghton Library em 1944 e foi formalmente doado por sua viúva, Ruby F. Stetson, em 1954. A trajetória institucional ficou documentada com nomes e datas. A origem da encadernação, por sua vez, carregava informações incompletas e relatos que pesquisas posteriores precisariam reexaminar.
Em 2014, uma análise científica confirmou a origem humana do material. A certeza técnica não produziu imediatamente a mudança de tratamento que a universidade adotaria uma década depois. A própria Harvard reconheceu que divulgou o resultado em publicações de tom sensacionalista, mórbido e humorístico. O objeto extraordinário ocupava o primeiro plano; a mulher, novamente, ficava atrás dele.
A revisão veio no contexto de um trabalho mais amplo sobre restos humanos nas coleções da universidade. Em 2024, a biblioteca pediu desculpas por práticas que haviam comprometido a dignidade da pessoa e retirou a pele do livro. A decisão implicava separar coisas que tinham sido conservadas como uma só. O texto podia permanecer no acervo. Os restos humanos exigiam outro destino.
Esse gesto também colocava uma dificuldade para uma biblioteca de livros raros. Encadernações, marcas de propriedade e alterações físicas fazem parte da história dos exemplares. Preservá-las costuma ser uma responsabilidade, não um capricho de colecionador. No caso de “Des destinées de l’âme”, porém, a conservação integral prolongava a incorporação de uma pessoa a um objeto de consulta. Harvard decidiu que o respeito aos restos humanos deveria prevalecer.
A investigação prosseguiu. Numa atualização publicada em abril de 2026, a biblioteca informou que um pesquisador americano e uma genealogista francesa haviam consultado arquivos e fontes em três países. Não conseguiram identificar a mulher. Tampouco encontraram documentos que ligassem aqueles restos a uma paciente determinada.
A pesquisa reviu ainda a explicação de que a pele teria vindo de um hospital psiquiátrico onde Bouland trabalhara. Não apareceu comprovação direta dessa origem. Seu período de formação médica em Estrasburgo, entre 1860 e 1865, passou a ser considerado o contexto mais plausível para a aquisição, embora a procedência específica continuasse sem confirmação. Uma hipótese mais provável não devolve, por si só, uma identidade.
Segundo a mesma atualização, a custódia dos restos foi transferida em agosto de 2025 ao comitê de Harvard encarregado de devoluções de restos humanos. O bloco de texto permaneceu na Houghton Library, com acesso digital. A mulher ainda não tinha um nome recuperado pela pesquisa. O livro, ao menos, já não precisava continuar vestido com sua pele.

