O conselho para obedecer aos senhores continuava lá. A passagem de Gálatas que colocava escravos e livres em igualdade perante Cristo, não. Numa edição da Bíblia publicada em Londres em 1807, destinada à instrução religiosa de pessoas escravizadas nas colônias britânicas do Caribe, essas duas decisões editoriais conviviam sob a mesma capa. A Universidade de Glasgow, que conserva um exemplar, apresenta a comparação entre o trecho excluído e o preservado. É um começo bastante concreto para entender o livro.
Conhecida hoje como “Bíblia dos escravos”, a publicação anunciava seu recorte no próprio título, que identificava tanto a seleção de partes das Escrituras quanto o público a que se destinava. O que impressiona é a dimensão do que ficou de fora. Segundo o catálogo de Glasgow, foram excluídos cerca de 90% do Antigo Testamento e metade do Novo. Os Salmos desapareceram por inteiro. O Apocalipse também.
A base era a tradução inglesa conhecida como Bíblia do Rei Jaime. O procedimento consistia em selecionar o material existente, e não em acrescentar uma nova doutrina ao texto. A intervenção se fazia pela ausência. Quem recebesse apenas aquela edição teria acesso a uma parcela das Escrituras escolhida de antemão por outras pessoas.
Vermelho indica a parte excluída. Estimativas apresentadas pela Universidade de Glasgow.
Todas as referências à liberdade desapareceram?
Não. Permaneceram, entre outras, passagens de Isaías 58 e Lucas 4 sobre a libertação dos oprimidos e dos cativos.
Uma Bíblia abreviada pode servir a muitos propósitos. Neste caso, porém, a identificação dos destinatários impede que se trate a escolha como simples economia de papel. O livro foi preparado para uma população submetida à escravidão, dentro de um empreendimento missionário. Seus leitores já estavam privados de decidir sobre a própria vida. Também lhes chegava delimitado o conjunto de textos com que deveriam aprender a religião.
Na apresentação de seu exemplar, Glasgow interpreta os cortes como uma forma de controle e legitimação da escravidão. O contraste entre Gálatas 3:28, excluído, e Efésios 6:5, mantido, ajuda a compreender essa leitura. O primeiro afirma a igualdade em Cristo; o segundo recomenda obediência aos senhores. A diferença tem consequências bastante materiais para quem está dos dois lados da relação.
Há, contudo, um problema na versão mais difundida dessa história. Dizer que os responsáveis apagaram toda referência à liberdade vai além do que o conteúdo permite afirmar.
O pesquisador Brandon Hurlbert examinou essa interpretação e apontou passagens que a complicam. A edição manteve Isaías 58, com sua defesa da libertação dos oprimidos, e Lucas 4, que menciona a libertação dos cativos. Até a referência à saída da escravidão no Egito sobreviveu na abertura dos Dez Mandamentos. Também ficaram de fora trechos usados historicamente para justificar o cativeiro. Não houve uma limpeza perfeitamente coerente de tudo o que pudesse favorecer a emancipação.
Essa ressalva importa porque permite separar o documento da história excessivamente arrumada que se costuma contar a seu respeito. A seleção é comprovável. A explicação de cada corte exige mais cuidado. Há diferença entre observar que uma passagem não foi incluída e afirmar que conhecemos, sem margem de dúvida, a intenção específica de quem a excluiu.
O livro continua perturbador com suas contradições intactas. Elas obrigam a olhar para um projeto de educação religiosa dirigido a pessoas escravizadas sem presumir que educação, conversão e liberdade fossem entendidas como inseparáveis por seus responsáveis.
Hoje, o exemplar conservado em Glasgow está digitalizado. É possível examinar a seleção que seus destinatários receberam e compará-la com o restante das Escrituras. A consulta devolve ao leitor uma possibilidade elementar que aquela edição, sozinha, não oferecia. Ler também o que ficou de fora.

