Han van Meegeren precisava convencer as autoridades de que era um trapaceiro. Preso em 1945, depois do fim da ocupação nazista dos Países Baixos, o pintor tinha um problema que a maioria dos falsificadores consideraria um elogio. Uma tela que saíra de suas mãos era aceita como obra de Johannes Vermeer. Pior, havia terminado na coleção de Hermann Göring. Se fosse autêntica, a transação envolvia entregar ao inimigo um tesouro da pintura holandesa. Sua defesa dependia de mostrar que o tesouro era falso.
A obra era “Cristo e a adúltera”. A investigação sobre sua passagem à coleção do comandante da Luftwaffe chegou a Van Meegeren, que afirmou ter pintado o quadro e outras obras atribuídas a mestres antigos. A confissão mudava a natureza do caso, mas trazia uma dificuldade bastante prática. Por que acreditar agora no homem que havia passado anos enganando compradores?
Ele teve de demonstrar sua capacidade de produzir outra pintura daquele tipo. No episódio reconstituído pelo King’s College London e pelo Courtauld, a habilidade antes usada para ocultar a autoria passou a servir para reivindicá-la. Era um reconhecimento artístico em condições pouco recomendáveis. Van Meegeren precisava que seu nome substituísse o de Vermeer.
O golpe já havia alcançado instituições respeitáveis. Em 1937, o Museu Boijmans, em Roterdã, comprara “A ceia em Emaús” como uma obra de Vermeer. Hoje, o próprio museu apresenta o quadro como uma falsificação de Van Meegeren e explica o mecanismo da invenção. Ele criava composições que pareciam preencher lacunas na trajetória do mestre do século XVII. Oferecia aos especialistas uma descoberta que podia se encaixar no que esperavam encontrar.
Há uma diferença importante entre copiar um quadro conhecido e inventar outro que o artista poderia ter pintado. A cópia pode ser confrontada com um original. A suposta descoberta exige reconstruir uma história para o objeto, julgar sua técnica e aceitar que aquela novidade pertence a uma obra já consagrada. Van Meegeren trabalhava nesse espaço. A pintura tinha de convencer, mas a possibilidade de ampliar o catálogo de Vermeer também fazia sua parte.
O envelhecimento do material exigia trabalho. Segundo a apresentação do King’s College e do Courtauld, o falsificador empregava uma resina sintética, a baquelite, e aquecia pinturas no forno para endurecer a superfície. A aparência antiga era produzida por procedimentos modernos. No caso de “A ceia em Emaús”, o Boijmans registra ainda o uso de uma tela do século XVII, um suporte que ajudava a tornar mais persuasiva a atribuição.
A demonstração do pintor, porém, não dispensou a perícia. Como relata o Instituto Neerlandês de História da Arte, uma comissão internacional foi encarregada de investigar a autenticidade das obras. O químico belga Paul Coremans liderou os trabalhos, com participação de outros especialistas. Radiografias ajudaram a verificar se as superfícies correspondiam ao que se esperava de pinturas antigas.
As rachaduras forneceram uma pista. Nas obras examinadas, havia mais fissuras visíveis na superfície do que nas radiografias, uma discrepância relevante para a investigação. A comparação entre contrastes de luz e sombra nas imagens radiográficas também distinguiu os quadros suspeitos de um Vermeer autêntico. A pintura podia impressionar a olho nu e ainda assim revelar uma história diferente quando examinada por outros meios.
O caso terminou com a condenação de Van Meegeren por falsificação, a um ano de prisão. Provar a fraude não apagava a fraude. Apenas desfazia a atribuição que tornara tão grave a suspeita inicial sobre a venda ao nazista. A mesma autoria que ele escondera para ganhar dinheiro havia se tornado indispensável à sua defesa.
“A ceia em Emaús” permaneceu na coleção do Boijmans. O museu reconhece sua importância para a própria história, inclusive como registro do engano. É um destino curioso para uma falsificação. O quadro perdeu Vermeer, ganhou de volta Van Meegeren e continuou merecendo ser guardado. Mudou a razão de olhar para ele.

