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Bula AchadosO olhar dos pombos

Para um grupo de pombos num laboratório japonês, Monet dava comida. Para outro, quem garantia a recompensa era Picasso. Os pesquisadores haviam organizado uma pequena educação visual em que a consequência de reconhecer uma pintura chegava pelo comedouro. É um incentivo mais concreto do que os oferecidos pela maioria dos cursos de história da arte.

O trabalho de Shigeru Watanabe, Junko Sakamoto e Masumi Wakita, da Universidade Keio, foi publicado em março de 1995 no “Journal of the Experimental Analysis of Behavior”. No primeiro experimento, oito pombos aprenderam a responder de maneira diferente às reproduções dos dois pintores. A surpresa veio depois. Diante de obras que não haviam aparecido no treinamento, as aves conseguiram estender a distinção ao material desconhecido.

Vale demorar um pouco nesse detalhe. Decorar um conjunto de imagens já seria uma tarefa respeitável. Reconhecer alguma coisa em comum entre imagens novas exige que o aprendizado possa viajar. Pense no leitor que reconhece a prosa de um escritor num parágrafo que nunca leu. A comparação serve para esclarecer a pergunta do experimento, sem atribuir aos pombos uma experiência literária ou artística que ninguém demonstrou.

O treinamento usava dez reproduções de cada pintor. As aves eram divididas em dois grupos, com recompensas associadas a artistas diferentes. Bicadas numa tecla, diante das imagens correspondentes, permitiam obter alimento. Assim, o que poderia parecer preferência por um pintor tinha sido estabelecido pelo procedimento. Anos depois, numa entrevista ao Nippon.com, Watanabe insistiria que a escolha acompanhava a recompensa, sem demonstrar uma apreciação espontânea das obras.

Uma recompensa, dois grupos

Grupo Monet

Quatro pombos. As respostas diante das imagens de Monet podiam render alimento.

Grupo Picasso

Quatro pombos. As respostas diante das imagens de Picasso podiam render alimento.

O que tornava o teste decisivo?

Depois do treinamento, foram apresentadas outras pinturas. Distinguir obras que não haviam sido usadas no aprendizado indicava que as aves conseguiam aplicar a discriminação a novas imagens.

A distinção preserva o interesse da descoberta. Dizer que um pombo gosta de Picasso exigiria saber o que “gostar” significa naquela situação. Reconhecer regularidades visuais é uma capacidade que pode ser investigada com perguntas mais precisas. A ave responderia da mesma maneira se o quadro mudasse? E se fosse apresentado em outra posição? O experimento ganha força justamente quando os pesquisadores começam a dificultar a tarefa.

Houve generalização também para outros artistas. As respostas se estenderam de Monet a obras de Cézanne e Renoir, e de Picasso a obras de Braque e Matisse. Virar as imagens de cabeça para baixo, porém, produziu efeitos diferentes. A inversão prejudicou a discriminação dos Monet, enquanto os Picasso não sofreram o mesmo efeito. Os autores levantaram a possibilidade de que os objetos representados tivessem importância diferente nos dois conjuntos.

Isso torna menos satisfatória aquela explicação automática segundo a qual o bicho simplesmente decorou tudo. Também recomenda cuidado com a explicação oposta, igualmente apressada, de que teria compreendido o impressionismo ou o cubismo. Os nomes dos movimentos carregam história, disputas, intenções e convenções. Uma classificação visual pode funcionar sem que o observador tenha acesso a esse repertório.

Há ainda um limite importante na seleção. Os pesquisadores escolheram pinturas que consideravam típicas dos artistas. Obras da fase azul de Picasso, por exemplo, ficaram de fora. O estudo não submeteu os pombos à identificação de qualquer trabalho produzido pelos dois pintores ao longo da vida.

Quem já tentou reconhecer um artista fora de sua fase mais famosa pode apreciar a diferença. A pergunta sobre o que caracteriza uma obra se complica quando o próprio autor muda de assunto, técnica e ambição. Seria injusto exigir de uma ave o domínio completo de um catálogo que também dá trabalho aos especialistas.

O experimento deixa uma questão mais interessante do que a disputa imaginária entre um pombo e um crítico de arte. Quanto daquilo que chamamos de reconhecer um estilo começa numa percepção de semelhanças que ainda não sabemos explicar? Podemos notar uma afinidade antes de encontrar as palavras para descrevê-la. No laboratório, os pesquisadores conseguiram investigar parte desse problema sem depender de explicações verbais.

Os pombos, pelo menos, estavam dispensados de escrever o texto do catálogo.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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