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Bula AchadosOs movimentos da ficção

Uma personagem perde o emprego, passa por dificuldades e encontra uma saída. Outra conquista o que desejava e vê tudo desmoronar. Troque a profissão, a cidade, o século, o motivo da perda: o movimento de queda e recuperação, ou de ascensão e desastre, continua reconhecível. Um estudo publicado em 2016 procurou rastrear essa familiaridade em 1.327 livros e encontrou seis trajetórias emocionais recorrentes.

O trabalho de Andrew J. Reagan e seus colegas, publicado na revista “EPJ Data Science”, examinou obras do Projeto Gutenberg, acervo digital de acesso livre. A seleção reuniu textos em inglês, predominantemente de ficção. Os pesquisadores buscaram regularidades na variação do conteúdo emocional ao longo dos livros. A palavra “predominantemente” merece ficar: os filtros usados para montar a amostra não produziram uma coleção inteiramente livre de outros tipos de texto.

O resultado cabe em seis movimentos: ascensão; queda; queda seguida de ascensão; ascensão seguida de queda; ascensão, queda e nova ascensão; queda, ascensão e nova queda. Os nomes escolhidos pelos autores ajudam a reconhecer algumas dessas formas. Ícaro sobe e cai. Cinderela melhora de vida, sofre um revés e volta a subir. São maneiras de nomear curvas, sem exigir que todos os livros de um grupo tenham asas de cera ou sapatinhos perdidos.

Essa diferença é decisiva. O estudo não descobriu que só existem seis enredos, nem demonstrou que toda a literatura pode ser acomodada em seis gavetas. Os próprios autores separam o arco emocional da sequência de acontecimentos e do significado de uma obra. Histórias muito diferentes podem produzir curvas parecidas. A classificação conserva um aspecto do livro e deixa muitos outros de fora.

Os movimentos recorrentes6trajetórias
Ascensão
Queda
Queda e ascensão
Ascensão e queda
Ascensão, queda, ascensão
Queda, ascensão, queda
Representação simplificada das formas descritas no estudo; as curvas não reproduzem os dados de livros individuais.

Para construir as curvas, a equipe percorreu os textos em trechos sobrepostos de 10 mil palavras. Um instrumento de análise de sentimentos atribuía valores ao vocabulário de cada trecho. A sucessão desses valores formava uma linha de variação. Três métodos de análise deram apoio aos padrões encontrados. O procedimento permite comparar muitos livros, mas não equivale a acompanhar o rosto de alguém enquanto lê.

Vale imaginar duas cenas. Numa delas, uma mulher recebe uma carta que esperou durante anos. Na outra, um homem abre uma carta que preferia nunca ter recebido. O papel, o envelope e o gesto podem ser quase os mesmos. O peso da cena depende do que veio antes, de quem escreveu, de uma frase que talvez pareça banal quando isolada. Uma medida do vocabulário oferece pistas; a leitura precisa estabelecer essas relações.

A inspiração do trabalho inclui Kurt Vonnegut, que desenhava histórias como linhas de boa e má fortuna. Uma de suas formas favoritas era a de alguém que entra numa dificuldade e depois consegue sair. Há um prazer bastante compreensível nessa promessa. A queda cria uma expectativa; a recuperação dá a ela um destino. Ainda assim, reconhecer a forma geral diz pouco sobre a maneira como um escritor nos faz atravessá-la.

Pense num final feliz alcançado depressa demais. O leitor entende perfeitamente o que aconteceu e pode continuar insatisfeito. Faltou tornar convincente a mudança, dar espessura à perda, fazer com que a saída custasse alguma coisa. Em outra narrativa, um gesto mínimo pode bastar. A intensidade de uma leitura não depende apenas da direção tomada pela história, mas do trabalho que permite acreditar nela.

O alcance da pesquisa também depende da estante escolhida. Um conjunto de livros em inglês, selecionados por critérios de tamanho e disponibilidade num acervo específico, não representa todas as tradições narrativas. E o método tem dificuldade para registrar acontecimentos emocionais muito breves. Um parágrafo pode alterar inteiramente nossa relação com uma personagem sem produzir uma grande mudança na média de um trecho muito maior.

Esses limites ajudam a ler o achado sem exigir dele uma teoria completa da literatura. As curvas permitem observar parentescos entre obras que, vistas de perto, têm personagens, ambientes e interesses diferentes. Podem sugerir comparações, levantar perguntas, mostrar recorrências difíceis de perceber quando se acompanha apenas um livro de cada vez.

Para o escritor, porém, a tarefa continua começando onde a classificação termina. Saber que uma história cai e depois sobe não fornece a voz de quem a conta, o ritmo de uma conversa, o detalhe que faz uma cena permanecer na memória. O leitor pode conhecer muito bem o caminho e ainda querer percorrê-lo outra vez. É preciso que alguém lhe dê uma razão.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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