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Bula AchadosDesenho e identidade

Em 15 de dezembro de 1953, Aldyr Garcia Schlee abriu o jornal “Correio da Manhã” e encontrou seu desenho anunciado como vencedor de um concurso. A camisa amarela, com verde na gola e nos punhos, ainda era uma proposta no papel. Tornar-se um dos objetos mais reconhecíveis do Brasil levaria tempo, partidas e uma quantidade de emoções que nenhum regulamento seria capaz de prever.

O autor guardava uma particularidade que costuma exigir uma segunda leitura. Era brasileiro, nascido em Jaguarão, no Rio Grande do Sul, e torcia pela seleção do Uruguai. Em entrevista ao GloboEsporte.com, em 2007, declarou sua preferência pela Celeste sem o constrangimento que se poderia esperar de alguém apresentado como pai da amarelinha. Também era torcedor do Nacional, de Montevidéu.

A geografia ajuda a desfazer o aparente absurdo. Jaguarão fica na fronteira, diante da cidade uruguaia de Rio Branco. Schlee contou que acompanhava o futebol, quando menino, pelos jornais uruguaios e argentinos que chegavam à região. Sua formação afetiva não obedecia ao desenho que um mapa político sugeriria. A proximidade cotidiana oferecia outras maneiras de escolher um time, reconhecer uma voz, acompanhar um campeonato.

O concurso de 1953 foi promovido pelo “Correio da Manhã” com a Confederação Brasileira de Desportos, a CBD. A seleção ainda carregava a derrota para o Uruguai no Maracanã, em 1950, e a troca do uniforme branco fazia parte da tentativa de renovar sua imagem. O regulamento exigia as quatro cores da bandeira brasileira. Cabia aos candidatos descobrir como fazê-las funcionar num jogador.

Schlee quase desistiu. Numa entrevista publicada em 2018, explicou que, ao ler as exigências, imaginara as quatro cores concentradas na camiseta. O problema lhe pareceu excessivo. A solução apareceu quando percebeu que podia distribuir as cores pelo conjunto. Amarelo e verde ficaram na camisa; azul e branco encontraram lugar nas outras peças. A combinação que hoje parece inevitável dependeu de alguém entender de outra maneira uma instrução.

O concurso de 19534coresO regulamento pedia as cores da bandeira no uniforme. A solução distribuiu a combinação entre as peças.
Camisa amarela e verdeCalção azulMeias brancas

Há uma diferença importante entre desenhar um uniforme e reconhecer nele um país. O primeiro trabalho envolve proporção, contraste, escolha de áreas e legibilidade. O segundo depende de usos que escapam ao desenhista. Uma camiseta não nasce carregada das partidas que ainda não aconteceram. É o público que, depois, passa a enxergar nelas algo além de tecido e cor.

Na lembrança de Schlee, a execução tinha pouco de improviso. O desenho foi feito num cartão de 30 por 40 centímetros. Para a figura do jogador, partiu de uma fotografia de Índio, do São Cristóvão, publicada na revista “Esporte Ilustrado”. Alterou cabelo e bigode e trabalhou a musculatura, as sombras e o fundo. O símbolo nacional teve, portanto, modelo, suporte, acabamento e decisões bastante materiais.

O rapaz já trabalhava com desenho. Em entrevista ao Portal Imprensa, recordou a atividade em jornais de Pelotas e a produção de rótulos e logotipos. A vitória abriu caminho para um estágio no “Correio da Manhã”. A camisa costuma ocupar tanto espaço na apresentação de sua biografia que é fácil perder de vista esse profissional, interessado também na organização visual de uma página de jornal.

Schlee seria ainda escritor, tradutor e professor de direito. São ocupações que ampliam a figura achatada pela curiosidade futebolística. Reduzi-lo ao torcedor uruguaio que desenhou a camisa brasileira produz uma boa anedota, mas deixa de fora a familiaridade com palavras, imagens e ambientes de fronteira que tornava aquela combinação menos improvável em sua própria vida.

A consagração do uniforme tampouco pareceu garantida ao criador. Ao GloboEsporte.com, ele disse ter imaginado que a camisa não sobreviveria ao fracasso brasileiro na Copa de 1954. Décadas depois, ao falar ao Portal Imprensa, atribuiu sua transformação em símbolo à qualidade e às conquistas do futebol do país. Havia orgulho pelo trabalho, sem a pretensão de ter desenhado sozinho tudo o que viria a significar.

A história ganha justamente quando se conserva essa distância. Schlee conseguiu atender a um concurso brasileiro sem precisar mudar de torcida. A camisa passou a representar milhões de pessoas que nunca souberam seu nome. Ele continuou capaz de reconhecê-la em campo e desejar a vitória dos homens vestidos de azul-celeste.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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