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Em 1939, na Califórnia, o detetive particular Philip Marlowe (Liam Neeson) recebe uma cliente que chega com dinheiro e informações pela metade. Clare Cavendish (Diane Kruger), uma herdeira casada, quer encontrar seu amante desaparecido, Nico Peterson (François Arnaud), funcionário do Pacific Film Studios. Com poucos trabalhos em andamento, ele aceita o serviço. Logo descobre, porém, que o homem teria morrido atropelado diante de um clube exclusivo. A insistência de Clare em procurá-lo transforma uma busca aparentemente simples numa investigação sobre uma morte cercada de dúvidas.

Dirigido por Neil Jordan, “Sombras de um Crime” acompanha esse detetive por ambientes nos quais uma boa recepção pode terminar assim que ele faz a pergunta errada. Entre os envolvidos estão uma antiga estrela de Hollywood, policiais pouco interessados em rever um caso encerrado e um administrador de clube que prefere preservar a discrição dos frequentadores. Marlowe precisa descobrir o que aconteceu com Peterson enquanto tenta separar as informações úteis das histórias contadas para despistá-lo.

Uma cliente que omite informações

Clare tem motivos para acreditar que o amante continua vivo, mas não entrega tudo o que sabe quando contrata o investigador. Essa reserva estabelece o principal problema da relação entre os dois. Marlowe depende da colaboração de uma mulher que deseja resultados sem abrir mão do controle sobre o que revela.

Diane Kruger dá à personagem uma elegância calculada. Clare pede ajuda, mas conserva a segurança de quem está acostumada a ter seus desejos atendidos. Sua aflição nunca a impede de escolher as palavras ou observar a reação do interlocutor. Para o detetive, trabalhar nessas condições significa investigar também a própria contratante. Afinal, receber pelo serviço não o obriga a acreditar em cada frase que escuta.

Neeson interpreta Marlowe com o cansaço de quem conhece esse tipo de situação e, ainda assim, precisa pagar as contas. Há algo atraente nessa disposição sem entusiasmo. Ele aceita o trabalho, ouve versões contraditórias e continua perguntando, mesmo quando a conversa já perdeu qualquer aparência de cordialidade. O ator sustenta bem a teimosia do personagem, embora sua interpretação contida por vezes deixe as descobertas menos expressivas do que poderiam ser.

Uma morte aceita sem muitas perguntas

A notícia do atropelamento leva Marlowe a procurar seu conhecido Joe Green (Ian Hart), detetive da divisão de homicídios. Green não demonstra interesse em retomar a apuração. Para ele, a identificação do morto oferece uma explicação suficiente. Para o investigador particular, as dúvidas levantadas pela cliente impedem que o assunto seja arquivado com tanta facilidade.

Essa diferença de disposição dá um rumo à busca. Sem poder contar com uma investigação policial empenhada, Marlowe precisa visitar os lugares ligados ao desaparecido e ouvir pessoas que não têm obrigação alguma de ajudá-lo. O Corbata Club, onde Peterson teria sido atropelado, torna-se uma parada indispensável.

Ali, ele conhece Floyd Hanson (Danny Huston), responsável pelo estabelecimento. Hanson recebe as perguntas com a cautela de quem administra um lugar frequentado por gente rica e pouco interessada em publicidade indesejada. Huston aproveita essa posição para criar um interlocutor desagradável sem precisar abandonar as boas maneiras. O detetive pode entrar no clube, mas isso está longe de lhe garantir acesso ao que procura.

Jordan dedica bastante tempo a esses encontros. O prazer está nas evasivas, nas provocações discretas e no esforço de Marlowe para obter alguma informação aproveitável. Algumas conversas, contudo, se prolongam além do necessário. A investigação avança, mas a sensação de perigo nem sempre acompanha o volume de nomes e suspeitas.

Uma mãe interessada no mesmo homem

A presença de Dorothy Quincannon (Jessica Lange), mãe de Clare e antiga estrela de cinema, acrescenta uma complicação familiar ao serviço. Ela também quer contratar Marlowe para localizar Peterson. O pedido coloca o profissional numa situação delicada, pois atender às duas mulheres pode comprometer a confiança da primeira cliente.

Lange dá vivacidade a Dorothy sem transformar sua autoridade em uma sucessão de gestos ostensivos. Ela fala com a familiaridade de quem passou anos recebendo atenção e não vê motivo para perder esse privilégio. Seu interesse pela vida da filha vem acompanhado do desejo de interferir nela, e o detetive passa a ocupar um espaço incômodo entre as duas.

As participações de Lange estão entre os melhores trechos de “Sombras de um Crime”. Quando Dorothy tenta extrair informações de Marlowe, a conversa ganha uma curiosidade que falta a algumas passagens da investigação. Há uma disputa familiar em curso, e ele foi contratado antes de conhecer suas regras. Uma confidência entregue à pessoa errada pode lhe custar a cliente ou atrair problemas adicionais.

Perguntar também tem um preço

A busca deixa de depender apenas da paciência quando Marlowe enfrenta agressões ligadas à investigação. Pessoas interessadas em interromper suas perguntas passam a oferecer um risco físico. O serviço aceito por necessidade financeira exige, então, uma disposição que o pagamento inicial dificilmente compensaria.

Neeson tem presença para essas passagens, mas seu detetive desperta mais interesse ao ouvir uma mentira do que ao responder com os punhos. O desgaste do personagem combina com a tarefa ingrata de atravessar ambientes luxuosos e sair deles com menos certezas. Jordan, porém, nem sempre dá às ameaças a força necessária para justificar tanta cautela. Em certos trechos, o espectador acompanha os perigos mais pela informação recebida do que pela tensão sentida.

“Sombras de um Crime” oferece bons atores, personagens de intenções duvidosas e uma investigação compreensível em sua origem. Falta mais vigor para sustentar o interesse quando os envolvidos se multiplicam e as conversas começam a competir entre si. Ainda assim, os encontros com Clare e Dorothy preservam o interesse pelo trabalho de Marlowe. Entre o pedido da filha, a interferência da mãe e a resistência dos homens que cercavam Peterson, ele insiste em perguntar e passa a ser procurado por quem gostaria de vê-lo abandonar o caso.


Filme: Sombras de um Crime
Diretor: Neil Jordan
Ano: 2022
Gênero: Crime/Drama/Mistério/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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