Em 1987, uma pesquisa perguntou aos americanos se as pessoas eram mais honestas, menos honestas ou tão honestas quanto dez anos antes. A pergunta parecia simples. Exigia, porém, que o entrevistado recuperasse a conduta de uma população inteira em outra época, comparasse com o presente e desse seu veredicto. Uma tarefa considerável para quem tinha à disposição, sobretudo, a própria memória.
Esse tipo de pergunta ocupa o centro de um trabalho publicado na revista “Nature” em 2023. Os psicólogos Adam M. Mastroianni e Daniel T. Gilbert reuniram pesquisas antigas e estudos novos, somando mais de 12 milhões de observações. Encontraram a percepção de decadência moral em pelo menos 60 países. Nos levantamentos americanos, a queixa atravessava sete décadas, de 1949 a 2019. Muita coisa havia mudado nesse intervalo. A convicção de que os outros estavam piorando permanecia.
É preciso acertar o sentido dessa piora. O assunto, aqui, era a disposição de tratar alguém com respeito, agir com honestidade, prestar ajuda. Uma moralidade de convivência, reconhecível em situações miúdas, que dispensa acordo sobre todos os valores de uma sociedade. Confundir essa dimensão com qualquer mudança de costumes tornaria a discussão interminável antes mesmo de examinar os dados.
O resultado mais interessante surgiu quando os pesquisadores mudaram a comparação. Em vez de confiar apenas no que alguém dizia lembrar de outra época, procuraram registros do que as pessoas haviam contado sobre o próprio presente. Entre os itens examinados estavam relatos de respeito recebido e de ajuda a desconhecidos. Numa das bases, eram 107 perguntas, aplicadas a mais de 4,4 milhões de pessoas entre 1965 e 2020.
As respostas permaneceram, em geral, estáveis. O mesmo padrão apareceu nos dados de outros países. A decadência reiteradamente anunciada não vinha acompanhada de uma deterioração equivalente nas avaliações que cada época fazia de seus contemporâneos.
O que essa comparação permite dizer
Recordar outra época e consultar o que se dizia na própria época são operações diferentes. A estabilidade dos relatos contemporâneos enfraquece a ideia de uma queda contínua da gentileza e da honestidade. Esses dados, por serem em grande parte autorrelatos, não constituem uma medida absoluta de toda a moralidade.
A diferença merece alguma demora. Se hoje alguém considera sua juventude uma época mais generosa, ainda falta saber como aquela generosidade era percebida quando a juventude estava acontecendo. Consultar uma pesquisa antiga permite ouvir o passado antes que ele seja reorganizado pela lembrança. Pode aparecer ali um sujeito igualmente convencido de que as pessoas boas pertenciam a uma época anterior à sua.
Seria cômodo atribuir tudo à nostalgia dos mais velhos. Os jovens, porém, também percebiam declínio. Segundo os autores, a diferença no total de piora relatada pelas faixas etárias se explicava pelo tamanho do intervalo considerado. Quem viveu mais dispunha de mais anos para acumular perdas. A taxa anual percebida não distinguia os grupos da mesma maneira.
Para explicar essa persistência, Mastroianni e Gilbert aproximaram dois fenômenos conhecidos. O primeiro diz respeito à informação que chega até nós. A atenção se prende com facilidade ao mau comportamento, que também encontra ampla circulação no noticiário. A experiência cotidiana de milhões de pessoas chega ao leitor depois de uma seleção. Fraudes e agressões têm mais chances de aparecer do que uma sucessão de encontros sem incidentes.
O segundo fenômeno trabalha sobre o que ficou para trás. A carga emocional negativa de uma lembrança tende a perder força mais depressa do que a positiva. Isso não exige esquecer um episódio ruim, apagá-lo da biografia. É possível lembrar do acontecimento sem experimentar novamente toda a intensidade do aborrecimento. Em entrevista à publicação “Harvard Gazette”, Mastroianni usou o exemplo de uma rejeição num baile que, anos depois, pode até render uma história engraçada.
A combinação oferece uma explicação possível para o desequilíbrio. O presente recebe continuamente novas provas contra si; parte do desconforto do passado já se dissipou. Os autores testaram previsões desse mecanismo, mas ele não encerra todas as explicações para o fenômeno.
Houve ainda uma mudança reveladora quando os participantes avaliaram pessoas de seu convívio. A impressão de declínio enfraqueceu; indivíduos conhecidos havia anos chegaram a ser considerados melhores no presente. A categoria imensa dos outros parecia se comportar de modo diferente dos outros que tinham nome e rosto.
Convém resistir à tentação de converter o estudo num atestado de boa conduta da humanidade. Seus indicadores são, em grande parte, relatos, sujeitos a limites. Uma avaliação estável pode ser estável num patamar insatisfatório. Nada impede que determinada comunidade atravesse uma piora real, nem que uma pessoa tenha motivos bastante concretos para desconfiar de quem a cerca.
O que a pesquisa torna difícil é passar dessas experiências para a certeza de que toda uma época era moralmente superior. A lembrança de um vizinho generoso pode ser inteiramente verdadeira. Para transformá-la num retrato de sua geração, ainda seria preciso conhecer os outros vizinhos.

